Data: 30 de junho de 2008
Pronunciamento em homenagem a Ubirajara Gomes da Silva
A Assembléia Legislativa, fiel aos ideários do seu patrono, o memorável abolicionista Joaquim Nabuco, faz hoje uma homenagem que esperamos possa vir a se tornar comum daqui para frente.
Não está aqui uma pessoa que tenha conseguido vencer na vida a partir de um berço de ouro, ou mesmo vindo de uma classe média que, embora forçada a conviver com o pagamento de altos impostos e quase nenhuma assistência do estado, consegue colocar os filhos em escolas particulares, garantindo-lhes um futuro mais digno.
Não queremos dizer que aqueles que atingiram um patamar alto e tiveram uma família estruturada, não mereçam homenagens. Na verdade, eles têm muitos méritos pessoais passíveis de comemorações e de celebrações por esta casa até porque há muita gente que, a despeito de todas as oportunidades que tem na vida, acaba se perdendo e enveredando por caminhos não recomendáveis.
Mas, não há dúvida de que pessoas como o nosso agraciado de hoje, Ubirajara Gomes da Silva, merecem mesmo uma dupla homenagem de todos nós.
Primeiramente, uma homenagem por ter superado todas as violências psíquicas e emocionais decorrentes da vida nas ruas e da solidão de não contar com uma família e um lar como referência, sem se entregar ao caminho da violência e do submundo das drogas.
Muito pelo contrário, o jovem buscou na educação e no trabalho sua fonte de esperança e força para superar as atrocidades de um mundo que não é uma escolha, mas conseqüência de uma sociedade que desconhece seus próprios valores.
Segundo, pelo grande mérito de ter conseguido, a despeito do contexto em que se encontra, se classificar no concurso de nível médio do Banco do Brasil e ser chamado para assumir a função de escriturário. Um exemplo de superação, perseverança e força de vontade que ele dá a todos nós.
Caçula entre cinco irmãos, aos 15 anos Ubirajara trocou a casa da avó materna (por quem todos os netos eram criados), pelas ruas do Recife, fugindo de uma vida de agressões físicas e psicológicas. Um cenário que, infelizmente, tornou-se muito comum na nossa sociedade.
Durante os últimos 12 anos, ele morou nas ruas da cidade, dormindo em qualquer lugar que parecesse mais tranqüilo, tomando banho nas praças e fazendo bicos para sobreviver. Foi auxiliar de padeiro, office-boy, vendedor de porta-em-porta, mas nunca teve uma carteira assinada. Contudo, sempre acreditou que merecia algo mais do que esses "bicos", se dedicando, na medida do possível, aos seus estudos.
Em 2001, matriculou-se na sexta série da escola pública Luiz Delgado e, paralelamente, fez supletivo concluindo seus estudos de nível médio em fevereiro do ano passado, freqüentando, exclusivamente, as bibliotecas públicas.
Entre 2006 e 2007, fez cinco concursos tendo passado em quatro: IBGE, Lafepe, Chesf e Banco do Brasil, no qual foi convocado para assumir o cargo de escriturário tendo concorrido com mais de 19 mil inscritos. Acertou 116 das 150 questões da prova. Através da Internet, que acessava em bibliotecas públicas ou lan-houses, teve acesso aos editais, a materiais de estudo e a troca de informações com outras pessoas. Também foi na rede que soube de sua classificação.
No próximo dia 7 de julho, Ubirajara começa a trabalhar com carteira assinada pela primeira vez. Mas sua vontade de crescer não pára por aqui. Tem por projeto de vida e objetivo fazer faculdade para administração ou ciências contábeis e montar seu próprio negócio.
Ao adolescente que era, há 12 anos, faltou estrutura familiar, um lar que o abrigasse e o afeto necessário a todo ser humano, mas ele conseguiu manter viva, dentro de si, a noção básica de ser um cidadão e se transformar no homem adulto que é.
Um verdadeiro exemplo que faz a todos nós refletir sobre nossas escolhas, valores e a importância da educação. E aqui vale ressaltar o papel fundamental do poder público em garantir o acesso universal a fontes de conhecimentos que são as escolas, as bibliotecas públicas e a Internet.
Como Ubirajara existem muitos que podem alcançar seus sonhos desde que amparados por suas famílias ou, em sua falta, por um Estado provedor, capaz de estimular e desenvolver as potencialidades próprias de cada um.
Por tudo isso, não queremos apenas lhe parabenizar, Ubirajara, mas, sobretudo, lhe agradecer por nos mostrar que a realidade pode ser transformada. E para muito melhor.
Parabéns. E obrigada. |