Terezinha Nunes - Deputada Estadual
   
 
 
 

Data: 26 de maio de 2009
Discurso em homenagem ao maestro Marlos Nobre

Pernambuco é, sem dúvida, um celeiro de grandes talentos. Aqui nesta tribuna, ao longo do tempo, colegas e ex-colegas deputados, têm reconhecido isso, prestando homenagens aos pernambucanos de todas as áreas que têm se destacado ao longo da vida.

É forçoso reconhecer que, fiéis ao jargão criado por uma grande emissora de rádio estadual, o famoso “Pernambuco falando para o mundo”, muitas das celebridades que têm recebido o reconhecimento desta Casa, também chamada de Casa do povo, pois é aqui, sobretudo, que a democracia se exerce e se fortalece, são personalidades não só nacionais, mas também internacionais.

Poucas delas respondem tão fielmente a este figurino como o nosso homenageado desta noite. O maestro Marlos Nobre, que chega aos 70 anos de vida e aos 50 anos de carreira com a mesma impetuosidade e talento que manifestou aos 4 anos de idade quando começou a estudar piano com sua prima e professora Nysia Nobre.

Na época, piano era instrumento mais comum para meninas do que para meninos. Por isso a prima Nysia não escolheu Marlos como seu primeiro aluno na família mas a irmã do maestro, a Vanêde. Ela parecia num primeiro momento a mais inclinada a seguir os exemplos do pai e da mãe, amadores, mas igualmente interessados na música e na descoberta dos seus encantos.

O menino, porém, não ficou longe desta aparente restrição familiar. Enquanto a irmã e a prima dedilhavam o piano em sua casa na rua São João, no bairro de São José, observava, escondido, ouvindo extasiado a performance das duas. Terminada a aula, quando Vanêde e Nysia se afastavam, ele corria para o piano e, com os dedos ainda frágeis para mexer nos teclados, improvisava notas musicais que ia juntando e compondo só para si as primeiras melodias.

Um belo dia, porém, a prima Nysia o surpreendeu ao piano e procurou a mãe do maestro e sua tia Maria José, com um recado curto e grosso: “Este menino – disse ela – adora música e é ele quem tem que estudar piano”. A mãe Maria José concordou de imediato e então o menino teve o aprovo familiar para o que viria ser, mais tarde, uma grande carreira.

O apoio familiar a este talento que surgia rendeu frutos rapidamente. Aos cinco anos, Marlos cujo nome é uma união entre o nome do pai, Carlos, e da mãe, Maria, já tinha concluído sua primeira composição à qual batizou de “Valsa da Mamãe”. Filho do meio do casal, esse músico precoce buscou aprofundar seus conhecimentos desde cedo e aos 10 anos era aluno aplicado do Conservatório Pernambucano de Música.

Aos 21 anos, em 1960, houve um episódio que marcou definitivamente sua carreira. Foi quando ganhou o primeiro prêmio do 2.o Concurso Nacional de Composição Música e Músicos do Brasil, promovido pela Rádio MEC. A crítica do Rio de Janeiro foi unânime em classificá-lo na época, após a estréia do seu TRIO para piano, violino e cello, como o verdadeiro sucessor de Villa Lobos.

E o que Marlos relutava em fazer não pode mais ficar escondido. Teve que deixar sua terra Recife e se mudar para o Rio para abraçar um caminho de sucesso que não parou mais.

Ao longo desta brilhante carreira, o maestro já compôs 240 obras, gravadas e difundidas mundialmente por grandes orquestras como a Royal Philarmonic, de Londres, a Orquestra de Paris e a Orquestra da Ópera de Nice. Em seu catálogo constam 48 discos lançados, incluindo um duplo com as 12 grandes peças regidas e tocadas por ele, como o Quarteto de cordas n.o 1 e Mosaico.

Primeiro brasileiro a reger a Royal Philarmonic Orchestra, de Londres, em 1990, o maestro só tem feito crescer seu sucesso a nível internacional. Foi detentor do prêmio UNESCO de Música, em 1974 e, em 1985 foi eleito, por aclamação, com voto de representações de 165 países, presidente do Conselho Internacional de Música, da UNESCO, o mais alto cargo do setor musical em todo o mundo.

Recentemente, em 2006, conquistou o Prêmio Tomás Luís de Victoria, em Madri, como o maior compositor Ibero-americano da atualidade.

Um grande orgulho para os brasileiros e, especialmente, para os pernambucanos, o maestro não esqueceu suas origens. Reconhece a influência que recebeu dos ritmos pernambucanos como maracatu, frevo, caboclinhos e ciranda que pontuam o seu subconsciente no momento em que se senta para compor.

Tal influência ele fez questão de registrar em suas composições mais famosas como Opus 43 dividido em cinco partes pontualmente batizadas de caboclinho, cantilena, maracatu, ponteado e frevo. No mesmo ritmo nordestino e pernambucano compôs seu Frevo n.o 2 e o Ciclo Nordestino, fazendo com que nossa música acabasse reproduzida, através de suas composições, pelas principais orquestras européias.

Como lídimo representante de nossa cultura e do nosso saber, o maestro tem espalhado pelo mundo o conhecimento que começou a adquirir em Pernambuco nos tenros anos de sua infância. Foi desta forma que assumiu a cadeira de professor-visitante das universidades de Indiana, Yale, Arizona e Oklahoma, nos Estados Unidos.

Ocupante da cadeira n.o 1 da Academia Brasileira de Música, cujo patrono é José de Anchieta e cujo fundador foi Villa-Lobos, o maestro Marlos Nobre é pai de uma jovem de 16 anos, Karina, filha de sua atual esposa, a pianista Maria Luíza Cocker-Nobre, com quem se casou em 1981, oficializando um romance iniciado em Hanover, na Alemanha, onde os dois se encontraram. Ele, um maestro famoso, ela uma jovem estudante de música.

Influenciado pela filha e pela necessidade constante de se aproximar da juventude, o maestro é um entusiamado freqüentador do Youtube, permitam-me esta confidência. Através desse instrumento, cada vez mais acessado em todo o mundo, suas composições foram disponibilizadas, através de uma série de vídeos que já receberam mais de 3500 acessos. Uma verdadeira aula para os jovens e um presente para o público em geral.

A relação com os jovens compositores não fica só no mundo virtual. Quando está no Brasil, o maestro costuma abrir as portas de sua casa do Rio, todo último sábado do mês, para receber a nova geração de compositores, tocando as obras que chegam às suas mãos e dando orientações.

Pelo muito que realizou, pelo amor que tem pelo Recife, por Pernambuco, por todo o nosso povo, é uma obrigação nossa, desta casa, celebrar os 70 anos do maestro Marlos Nobre e os 50 anos de sua carreira, como fazemos esta noite.

No Brasil e no Exterior, celebrações se repetirão durante todo este ano, com concertos especiais mostrando suas obras, novas composições, gravações, palestras e exposições.

Em Pernambuco, as comemorações iniciadas hoje, vão continuar. Organizado pela pianista Ana Lúcia Altino, aqui presente, o Festival Virtuosi, um dos raros espaços de valorização da música clássica no Nordeste, homenageará o maestro ao longo de três noites com a apresentação de suas composições e uma exposição sobre os 50 anos de sua carreira.

Parabéns maestro Marlos Nobre. Esta casa ficou mais rica com esta homenagem que lhe presta. Cidadão de Pernambuco, Cidadão do Mundo, saiba que sua música, seu talento, seu amor à nossa terra, cala fundo no coração de todos nós que estamos aqui para festejá-lo.

   
 
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Jornalista responsável Margarette Andrea