Data: 25 de junho de 2008
Pronunciamento em homenagem a Ruth Cardaso
Diz a sabedoria popular que, por trás de um grande homem, existe uma grande mulher. Uma mulher brasileira mudou este conceito, estabelecendo a máxima de que "não atrás, mas ao lado de um grande homem existe sempre uma grande mulher".
Esta é a história de dona Ruth Cardoso que faleceu ontem deixando mais pobre o Brasil e o movimento feminino, que tinha nela um exemplo a ser seguido.
Casada com um intelectual internacionalmente respeitado, como o ex-presidente Fernando Henrique, D. Ruth nunca se intimidou. Brilhou, igualmente, ao lado do marido como mulher, como mãe, como intelectual, como uma pessoa que conquistou e ganhou o respeito de todos os segmentos sociais neste país de tantas desigualdades, como é o caso do Brasil.
Com capacidade suficiente para ocupar as manchetes, D. Ruth era, como os grandes sábios, avessa aos holofotes. Não gostava de ser chamada de primeira-dama, tampouco se deixou levar pelos luxos e pelos assédios durante os anos em que residiu no Palácio da Alvorada. A discrição era a sua marca. Soube viver sua própria vida sem a passividade das antigas esposas de chefe de estado.
Foi, sem sombra de dúvida, a primeira grande primeira-dama brasileira e se antes dela nenhuma esposa de Presidente se destacou tanto, certamente vai ser difícil, daqui para frente, outra primeira-dama ultrapassá-la.
Saíram do gabinete de D. Ruth os projetos sociais que mudaram o conceito brasileiro de assistência às vítimas das desigualdades sociais que nos afligem. Ela criou o programa Comunidade Solidária que, de 1995 a 2002, alfabetizou 3 milhões de jovens, capacitou outros 114 mil para o mercado de trabalho e estimulou a organização de mulheres artesãs em cooperativas de produção.
Contrária às esmolas de programas de assistência que mais viciam do que promovem o homem, D. Ruth espelhou no governo do seu marido o nascimento de projetos como Bolsa-Escola, que condicionava a ajuda mensal às famílias que mantivessem os filhos na escola.
Em Pernambuco esteve muitas vezes, num desses momentos visitando, no Governo Jarbas, o município de São Benedito do Sul, apontado como um dos mais pobres do País, e ali implantou um programa de recuperação econômica e social que fez o município deixar para trás a triste estatística da pobreza absoluta.
Nascida em Araraquara, no interior de São Paulo, em 1930, D. Ruth era doutora em antropologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e pós-doutorada pela universidade de Columbia, em Nova Iorque. Foi, igualmente, professora de antropologia e ciências políticas da Universidade de São Paulo e das universidades de Berkeley, nos Estados Unidos e de Cambridge, na Inglaterra.
Criou o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero, da USP. Em 1975, tornou-se coordenadora de pós-graduação em ciência política – área em que viria a atuar até os dias de hoje.
Por anos, atuou como pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – o Cebrap. Tornou-se uma das principais referências em antropologia no Brasil, tendo escrito livros sobre temas como cidadania, juventude e violência.
Casou-se com Fernando Henrique em 1953, com quem teve três filhos. Durante os anos de 1994 a 2002 fundou diversas ONG's com finalidade social, combate à pobreza e à exclusão social.
Embora sua influência no Governo Fernando Henrique não fosse freqüente – fazia questão de ter sua postura própria – a posição assumida por D. Ruth em algumas ocasiões foi decisiva como, em 1996, convencendo o marido a voltar atrás ao veto a um projeto que dava às mulheres, via laqueadura tubária, o direito à limitação do número de filhos.
Também é conhecida a postura que adotou diante de projetos recentes do PT. Um deles, o do estabelecimento de cotas para negros nas universidades. Corajosa, D. Ruth disse que as cotas, se existissem, deveriam ser sociais e econômicas e não de raça. Lembrou que no Brasil existe um grande contingente de pessoas pobres que não são negras e que continuam sem qualquer condição de chegar às universidades.
Entre os cargos que ocupou D. Ruth presidiu o Conselho Assessor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sobre Mulher e Desenvolvimento, foi membro da junta diretiva da UM Fundation e da Comissão da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre as Dimensões Sociais da Globalização. |