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Data: 24 de outubro de 2007
Pronunciamento sobre 50 anos da Casa dos Frios
Sr. Presidente,
Sras. Deputadas, Srs. Deputados,
Esta é, sem sombra de dúvida, uma das mais saborosas – me perdoem a ousadia – das homenagens que a Assembléia Legislativa realiza este ano. Não encontrei adjetivo melhor para pontuar a comemoração dos 50 anos da Casa dos Frios, uma legenda da gastronomia pernambucana e brasileira, neste Estado que sedia o terceiro pólo gastronômico do Brasil.
Falar da Casa dos Frios é falar de Pernambuco. Das nossas coisas mais caras, do nosso paladar tão aguçado pela presença entre nós da cana-de-açúcar, da agudez de visão de Gilberto Freyre ao ressaltar a excelência de nossa culinária em livros conhecidos em todo o país.
É falar das três raças – negro, branco e índio – presentes em nossa mesa com sabores os mais diversos, do acre e salgado, ao delicado e doce, do forte e apimentado, ao suave e insosso, porque o insosso tem também os seus encantos.....
É ressaltar as nossas festas tradicionais, onde a gastronomia se veste de todo o seu esplendor. É falar do nosso São João, com as gostosas comidas de milho, quando passam pela cozinha da Casa dos Frios nada menos que uma tonelada de massa de mandioca e um caminhão de milho.
Fundada pelo casal Maria Krause e Heinz Hischfeld, então como uma pequena loja de importados, sobretudo de origem alemã, ela começou a funcionar na rua da Palma, no centro do Recife, passando a comercializar frios e embutidos de qualidade.
Em 1957, os irmãos Dias (Licínio, Armênio, Antonio, Amadeu e Bernardino), que têm o nome citado em todos os estudos até hoje feitos sobre a gastronomia pernambucana, adquiriram a empresa. Proprietários de outras legendas estaduais no setor como é o centenário Restaurante Leite e da confeitaria Arcádia, eles tinham o objetivo de gerar renda para ajudar os pais que ainda moravam em Portoferreiro, pequeno vilarejo ao norte de Portugal.
Ainda bem, podemos dizer hoje. A cozinha alemã deu então lugar à comida portuguesa. E a Casa dos Frios passou aí a desenvolver pratos que acabamos incorporando na boa mesa pernambucana como o foram os casos, entre outros, do Pastel de Belém, ovos moles, doces variados e outras iguarias.
Finalmente, em 1970, Licínio e sua esposa Fernanda Maria Monteiro Dias – aqui presente – decidiram comprar dos irmãos suas cotas de participação na sociedade e assumiram por completo a administração da Casa dos Frios, que passou a ser comandada pelos dois e pelos filhos Carolina, Cristiana, Licínio, Isabel e Adriana.
Em 1971, alugaram a atual sede da Rui Barbosa para, inicialmente, abrigar um depósito de bebidas que acabou se transformando na grande loja que conhecemos hoje, ao lado de outra que funciona no bairro de Boa Viagem, desde 1991.
Citar a Casa dos Frios na gastronomia pernambucana é não só saboroso como histórico.
Com a ousadia e o espírito de responsabilidade, aliados a uma maneira incomum de servir e tratar bem os seus clientes, D. Fernanda abriu espaço para, não só consolidar a empresa, como para destacar e incorporar à cozinha estadual o seu famoso bolo-de-rolo, citado em todo o País como uma das mais deliciosas iguarias pernambucanas e que já figura entre os cotados para o reconhecimento como Patrimônio Imaterial de Pernambuco.
Adaptado a partir do bolo colchão-de-noiva português, que lá tem recheio de amêndoas, o bolo-de-rolo adotou a nossa pernambucaníssima goiaba, tornando-se, no dizer do acadêmico Marcos Vilaça, atual presidente da Academia Brasileira de Letras, “uma das maravilhas gastronômicas do Brasil”.
Sua delicadeza e paladar tiram de tempo o mais exigente dos mortais. E como estrela que é, o bolo-de-rolo desperta polêmicas, cria lendas, consolida preferências.
E ninguém melhor do que o próprio Vilaça, seu mais ferrenho degustador e propagador, para falar deste nosso patrimônio.
A jornalista Eliana Lobato, da Revista Isto é, deu ao bolo-de-rolo destaque especial na entrevista que fez com o nosso acadêmico, logo após a posse na academia. “Vilaça distribui bolo-de-rolo como uma senha de amizade” – escreveu ela e completou “ Diabético, pergunto se há bolo-de-rolo diet e ele completa “bolo-de-rolo não permite caricatura”.
Em outro momento, instado a falar do bolo-de-rolo para platéias de outros Estados, Vilaça se indignou com os que lhe perguntaram se o bolo-de-rolo era um rocambole “não tem nada de rocambole, nada de doce-de-leite – respondeu – ‘Bolo-de-rolo é com calda de goiaba, o resto é prevaricação”.
Especialista na cozinha pernambucana, Lectícia Cavalcanti também desfaz, como Vilaça, as comparações, dando ao bolo-de-rolo um caráter especial : “não há nada igual, pela finura das camadas e pela delicadeza na maneira de enrolar” – escreveu em artigo para o Terra Magazine. E concluiu “diferentemente do Raimundo, dos versos de Drummond, no bolo-de-rolo, este rolo do bolo é solução e rima”.
O nosso bolo-de-rolo, portanto, além de iguaria, virou poesia. E abriu os caminhos para que a Casa dos Frios, que produz mais de 40 tortas próprias e que lançará até o final do ano a “Torta do Meio Século”, se firmasse cada vez mais na preferência dos pernambucanos e no imaginário gastronômico dos brasileiros. Ao ponto de D. Fernanda, em 1980, ter sido convidada para preparar as refeições do papa João Paulo II, na visita que fez ao Recife, ganhando destaque nacional.
Pelo realce que ganhou, se nada mais tivesse feito, a Casa dos Frios, com o seu bolo-de-rolo, e com tudo que ele tem representado na divulgação das boas coisas de Pernambuco, já mereceria esta homenagem prestada por unanimidade dos deputados estaduais pernambucanos.
A mais expressiva novidade da comunicação mundial, a Internet, não nos deixa mentir. Nada menos que 75 páginas do Google mostram hoje as qualidades do nosso bolo e espelham depoimentos impressionantes sobre ele.
Uma simples consulta ao que dizem os internautas é de causar orgulho.
A simples divulgação da receita na Internet, como está fazendo a edição deste mês da revista Gula, aguça o paladar de brasileiros e estrangeiros. “Se o pernambucano tomar o chá das cinco, certamente, estará acompanhado com o bolo-de-rolo” – manifestou um internauta.
Outro pediu ajuda: “Vocês sabem fazer bolo-de-rolo, por favor, mandem um aqui para Fernandópolis”. Outro deslumbrou-se: “Não conhecia o bolo-de-rolo até ir a Recife. Como esse negócio é gostoso....” . Outro foi mais além: “ai que coisa saborosa é o bolo-de-rolo e ainda mais com goiaba, deve ser um bolo dos céus”. Um brasileiro residente nos Estados Unidos se rendeu aos encantos “Concordo, bolo-de-rolo é maravilhoso. Tenho medo de fazer porque é preciso uma técnica especial, mas tenho que encarar porque aqui é impossível comprar”.
Realmente, se o bolo-de-rolo não chega, ainda, pelo menos na quantidade desejada, em outros países ou Estados brasileiros, pode ser visto diariamente embarcando em sacolas de mão nas aeronaves que saem do Aeroporto dos Guararapes para deleite dos parentes e amigos dos recifenses.
E a Casa dos Frios até uma embalagem nova criou para favorecer o transporte interestadual.
Tendo-o como carro-chefe, mas sem deixar de cuidar das demais iguarias que enchem os olhos de quem para lá se dirige, a Casa dos Frios chega aos 50 anos, completados dia 04 de setembro, como toda empresa moderna, melhorando os serviços, ampliando espaços, agregando novos profissionais.
Nada menos que R$ 1 milhão está sendo investido este ano na empresa. A Loja da Rui Barbosa cresce dos 600 para os mil metros quadrados e passará dos atuais 28 para 75 em número de funcionários. A loja de Boa Viagem também será ampliada com o mesmo objetivo.
A experiência familiar é acrescida de novos especialistas na arte de bem produzir e bem servir. Assim é que Isabel Dias e a chef mais nova contratada, Luciana Sultanum, formada no Institut Paul Bocuse, em Lyon, na França, se revezam na criação de uma série de lançamento de iguarias salgadas e doces até o final do ano.
O pólo gastronômico pernambucano só tem a ganhar com isso. Em pujança, em representatividade, em divulgação. Por tudo que já fez e que, sem dúvida, vai continuar fazendo, a Casa dos Frios merece esta homenagem agora prestada, como símbolo do reconhecimento do povo de Pernambuco a esta família que tanto tem trabalhado, e continuará trabalhando, pelo engrandecimento do nosso estado.
Parabéns a D. Fernanda, filhos e netos e a todos os funcionários desta grande empresa.
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