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Data: 18 de março de 2009
Discurso sobre as viagens do governador ao Interior
A imprensa pernambucana vem registrando há dias a anunciada viagem do governador Eduardo Campos ao interior do estado.
Nada demais, afinal um governador tem obrigação de andar por todas as regiões, vistoriar obras, ver, pessoalmente, os problemas enfrentados pela população sobretudo no que se refere aos serviços prestados pela máquina pública. Cabe também a um governador conversar, trocar idéias, ouvir, enfim, o que não sai nos jornais, nas emissoras de rádio e TV e ainda fiscalizar o trabalho dos seus subordinados.
Um governador, porém, não deve ir ao interior apenas por ir. As viagens precisam de planejamento e, principalmente, incluir a participação da população em geral e não somente da classe política que tem poder de se deslocar até o Recife e mesmo de ter audiências com o chefe do executivo na capital.
Só que este governo sabe muito pouco sobre planejamento. Baforado pelos ventos dos grandes investimentos que encontrou em pleno andamento no estado e de uma infra-estrutura melhorada e aperfeiçoada como jamais se vira em Pernambuco, o atual governo está apenas “tocando as coisas”.
E estas viagens ao interior têm demonstrado claramente isso. Não houve planejamento, não se incluiu a população através de reuniões plenárias como deveria ter ocorrido e por isso dá a impressão que nesse seu deslocamento interiorano, o governador está mais se banqueteando e inaugurando academias da cidade do que tratando de projetos estruturadores. E academias da cidade são importantes sim, mas estruturadoras não.
Diria que a viagem tem sido, por isso, muito mais turística do que administrativa.
Por que? Porque não se tem notícia de qualquer encontro do governador com a população. Não se programou nenhuma plenária, nenhuma discussão, nenhuma possibilidade de análise do que o governo fez ou deixou de fazer. Enquanto que na administração passada Pernambuco contou, pela primeira vez, com um planejamento estratégico não só no Grande Recife, mas também no interior, tendo como carro-chefe o Programa Governo nos Municípios”, agora não há nada disso.
A comitiva chega trazendo o governador e sua equipe, corre de município em município – 34 cidades em 9 dias, ou seja, em média, mais de 3 municípios por dia! – faz alguns discursos e busca um novo roteiro. A excursão realizada pelo governador não abriu espaço algum para uma avaliação com a sociedade e com a classe política a respeito das ações do governo nas regiões visitadas. Foram apenas visitas individuais com o anúncio de algumas obras, sem nenhuma discussão mais estratégica.
E o pior, vindo de governo que prometeu dar mais atenção às outras regiões do estado do que à Região Metropolitana, não se tem notícia de qualquer estratégia ou ação minimamente planejada para o interior.
Afinal que obras foram efetivamente realizadas ou projetadas? Quantos kms de estradas foram feitos? Quantas escolas foram construídas, ou ampliadas? Que investimentos foram atraídos? Como andam as ações e quais os projetos para melhoramento das cadeias produtivas locais? Se existem, os conselhos de desenvolvimento local têm aprovado esses projetos? Qual o crescimento relativo do PIB dessas regiões nos últimos dois anos? Enfim quais são os eixos estratégicos para o desenvolvimento da cada região no atual Governo?
Para se ter uma idéia, falando da primeira etapa da visita do governador, vamos falar do próprio Pajeú. O governo passado, dentro das suas ações estratégicas estruturadoras, possuía como um dos eixos o apoio ao comercio e ao turismo através da ligação de asfalto com as fronteira da Paraíba, destacando-se as estradas Triunfo/Flores; Flores/divisa da Paraíba; São José do Egito - Grosso/divisa da Paraíba; Solidão / entroncamento da PE 320.
Pelo relatório da Agência Condepe-Fidem, apenas na região do Pajeú foram gastos, entre 2000 e 2003, um total de R$100.014.946,00 em obras de várias naturezas. Entre essas, somente em infra-estrutura social foram realizadas 1.410 ações em quatro anos, como eletrificação rural, construção de poços e cisternas, etc. Tudo sempre discutido através do programa “Governo nos Municípios” e nos diversos Fóruns de discussão com a sociedade.
Mas as ações não se resumiram ao Sertão do pajeú, foram realizados investimentos estruturadores ao longo de todo o estado, citando como exemplos a estrada da Uva e do Vinho, ligando os municípios de Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, fundamental para o crescimento da indústria de vitivinicultura do estado; a estrada do Gesso, ligando Araripina com a fronteira do Ceará; e a Adutora do Oeste, no Araripe.
Dos R$ 3 bilhões e 125 milhões investidos no período entre 1999 e 2002, no auge da aplicação dos recursos oriundos da venda da Celpe, menos de metade beneficiou o Grande o Recife. Em termos per capita, investiu-se mais no Agreste Central (R$603,00 por habitante) do que no Grande Recife (R$ 457,00 por habitante). Outras regiões de desenvolvimento foram igualmente beneficiadas tendo sido investidos, por habitante, na Mata Sul, R$ 388,00; no Sertão do Moxotó, R$ 380,00; no Sertão do Araripe, R$ 339,00; e no Sertão do Pajeú, R$ 336,00.
Esses investimentos permitiram que regiões do interior apresentassem um crescimento do PIB superior a do Grande Recife (2.6%) como o Sertão do São Francisco (7,8%), o Sertão do Pajeú (6,7%), o Sertão do Moxotó (4,3%), o Agreste Setentrional (4%), o Agreste Meridional (3,1%) e o Sertão Central (3%), conforme levantamento feito para a tese de mestrado em Gestão Pública da UFPE, em 2007, da técnica Suely Jucá Maciel.
Crescimento também destacado em reportagem sobre a economia do Nordeste, realizada pela Revista Exame, em maio de 2007. A reportagem destacou as áreas que mais cresceram nos estados e concluiu que este crescimento se deu mais no interior. No caso particular de Pernambuco, a reportagem informou que municípios como Cabo de Santo Agostinho e Santa Maria da Boa Vista vinham crescendo a taxas de 10% ao ano, e o município de Toritama, a taxas de 15% ao ano, mesmo nível dos tigres asiáticos.
Três dos dez municípios interioranos que mais cresceram no Nordeste no período da reportagem são de Pernambuco, destes somente Cabo de Santo Agostinho fica na Região Metropolitana, os outros são interioranos ajudando a reduzir a importância da capital do estado no nosso PIB.
Tais investimentos permitiram uma desconcentração até mesmo entre os municípios do Grande Recife. A capital do estado concentrava, em 2002, 35,75% do PIB estadual, passando, em 2006, a representar 33%. Os demais municípios metropolitanos, que agregavam 29,97% do PIB estadual, aumentaram para 32,12% sua participação, conforme dados do Condepe.
Foram as ações conjuntas e integradas ao longo de todas as Regiões de Desenvolvimento que permitiram ao governo passado entregar Pernambuco com uma variação real anual do seu PIB de 5,1%, estando acima das taxas de crescimento do Brasil (4%) e do Nordeste (4,8%).
E agora o que está sendo prestado contas à sociedade?
Para uma viagem dessas, sinceramente, não precisava tanto aparato, tanto marketing, tanta figuração.
Talvez para uma coisa ela vai servir. Para que o governador perceba o estado de algumas estradas, cheias de buracos, colocando em risco a vida de quem transita. Como vimos, por exemplo, na Região do Pajeú. Enfrentamos muitos buracos na estrada para chegar a São José do Egito e no trajeto São José -Afogados a buraqueira era ainda maior.
Esperamos que, da mesma forma que está vendo as estradas, o governador visite os hospitais interioranos, a maioria com enormes dificuldades, e que veja a situação de insegurança que predomina na maioria dos municípios. Na viagem a São José do Egito, citando mais uma vez como exemplo, o motorista de uma filha do prefeito foi assassinado no mesmo dia em que o governo se instalava no município.
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