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Data: 16 de outubro de 2007
Pronunciamento sobre concessão da Medalha Joaquim Nabuco ao empresário Marcos Magalhães
Sr. Presidente,
Sras. deputadas, Srs. deputados,
“Acabar com a escravidão não nos basta. É preciso destruir a obra da escravidão”.
Um dos brasileiros que mais lutou pelo fim da escravidão no Brasil, sendo um dos nossos principais abolicionistas, o patrono desta casa do povo pernambucano, o memorável Joaquim Nabuco, assim ressaltou em sua obra “O Abolicionista”, de 1883, a necessidade de levar à frente a luta pela democracia racial e de oportunidades em nosso país.
Enxergando o que viria pela frente, Nabuco já deixava claro naquela época que a simples abolição da escravatura, apesar de revolucionária para os padrões de então, apenas abria a porta das senzalas para que os negros pudessem ter a acesso a um direito sagrado do homem livre: a liberdade de ir e vir. Muito ainda precisava ser feito.
Várias foram as interpretações dadas à fala de Nabuco, umas inclusive reducionistas afirmam que ele se referia à necessidade de se fazer uma reforma agrária. Em tese de doutorado, porém, o historiador carioca Luís Alberto Helsinger foi mais além. Na sua visão, Nabuco ressaltava a necessidade de acesso da população negra, numericamente majoritária no nosso país, à propriedade, mas também à cidadania, direito sagrado do homem livre.
A conquista da igualdade de oportunidades, porém, tão ressaltada por Nabuco, não se daria ali. Como não se deu. Na verdade, ainda hoje, 119 anos depois, ela é um sonho, um eterno buscar, uma meta muito difícil de atingir.
E que só ocorrerá quando a educação de qualidade for um direito assegurado a todos os brasileiros. Quando acabar o apartheid educacional, de forma que pobres e ricos estudem em escolas de qualidade equivalente, de qualidade elevada. Só assim os brasileiros deixarão de estar divididos entre senhores e escravos.
“Fora da educação, não há salvação”, é uma frase que tem sido repetida e que nunca é demais voltar a lembrar. Sem ela os pobres, os desamparados, continuarão escravos. Viverão errantes, como cegos de olhos abertos, como homens pela metade, sem acesso ao trabalho digno, às oportunidades de crescimento intelectual e espiritual, à certeza de que valeu a pena nascer, mesmo que escravo, mas experimentar a busca e a conquista da liberdade. Enfim, o direito à cidadania.
Esta noite, em que a Assembléia Legislativa de Pernambuco, outorga a sua principal comenda, a Medalha Joaquim Nabuco 2007, ao pernambucano de Sertânia, dr. Marcos Magalhães, não poderia deixar de iniciar a saudação da casa ao nosso homenageado dizendo que ninguém melhor do que ele é uma prova da assertiva de Nabuco. E nos dois aspectos: como beneficiário e como benfeitor.
Marcos Magalhães é um produto da educação e elegeu a educação como sua principal bandeira. Imagino que se estivesse nesse recinto, à vista de todos - embora desconfie que aqui permaneça na forma do espírito revolucionário que envergou - Nabuco, certamente, estaria muito feliz com a escolha que, por unanimidade, esta Assembléia realizou, decidindo outorgar a esse empresário trabalhador, socialmente justo, marido e pai exemplar, intelectual vigoroso, homem simples, amigo, de alma sertaneja e ao mesmo tempo universal, a medalha que tem o seu nome.
Proveniente de uma família sertaneja modesta, Marcos Magalhães já nasceu carimbado pela marca educacional. Sua mãe, Marina, professora primária, seu pai Manoel, começaram, muito cedo, a lhe mostrar que só na escola, estudando, se instruindo, crescendo como cidadão, alcançaria seus objetivos de vida e de realização pessoal e profissional.
Ainda pequeno, o menino Marcos, levou o exemplo ao pé da letra. Freqüentou o ensino primário e fundamental no interior e mudou-se para o Recife. Com dificuldade, seguindo o mesmo caminho dos jovens de numerosas famílias sertanejas de então, foi xepeiro da Casa do Estudante – saúdo os também ex-xepeiros aqui presentes - freqüentou o Ginásio Pernambucano, escola pública de qualidade, e, finalmente, de forma brilhante, formou-se em Engenharia pela Universidade Federal de Pernambuco.
Poderia, como aconteceu com a maioria dos seus colegas de turma, se contentar com um bom emprego e se acomodar, deixando de lado os sonhos que já acalentava em Sertânia e em Arcoverde, onde também morou. Mas não era esse o destino do jovem engenheiro. De estagiário de uma multinacional das maiores do mundo que tem fábrica no Recife, Marcos Magalhães, estudando e se instruindo cada vez mais, foi subindo de posto.
Muito jovem ainda, assumiu a direção da fábrica da Philips, no Curado, depois virou executivo na direção nacional do grupo e, este ano, aposentou-se, após vários anos como presidente da Philips na América Latina. Permanece na empresa como presidente do Conselho Consultivo, um conselheiro, um consultor do qual o grupo no qual permaneceu tanto tempo, sempre em ascensão, não deseja abrir mão.
É da praxe dos discursos, sobretudo em homenagens como essa, o orador produzir frases de efeito para ressaltar as qualidades do homenageado. Com o nosso agraciado de hoje, porém, foi necessário poupar os elogios, pois a obra fala por si só. Acrescê-la de informações iria nos obrigar a passar horas falando dessa tribuna. Se não vejamos.
A vida acadêmica sempre esteve nas preocupações de Marcos Magalhães, o que o levou a se tornar regente da cadeira de Teoria de Controle e Servomecanismo da UFPe. Mas suas atividades no campo da educação e da economia o levaram a assumir, entre outros, a vice-presidência da Eletros, a presidência do Instituto de Co-Responsabilidade pela Educação e do Conselho do Instituto de qualidade no Ensino, da Câmara Americana de São Paulo e a função de membro de diversos conselhos empresariais, como o de gestão do Lide- Grupo de Líderes Empresariais.
Há muito tempo dedicado, quase de forma integral, às atividades de executivo e engenheiro brilhante, Marcos Magalhães, iniciou, no final da década de 90, uma tarefa que sempre guardou para si, esperando, pacientemente, o momento de coroá-la.
Como um Dom Quixote do século XXI, empunhou sua espada para devolver ao povo de Pernambuco, em dobro, talvez em triplo, o que daqui recebeu muito mais por esforço próprio do que por ajuda dos companheiros e amigos.
Foi assim, ajudando a reconstruir e assumindo a condição de condutor, que retornou a todos os espaços que freqüentou como estudante no Recife. E começou pela Casa do Estudante, por muitos anos motivo de noticiário negativo e de péssimo exemplo de direção. Não só recuperou o espaço físico, para continuar abrigando os jovens pobres que vêm do interior, como implantando, com sua experiência de empresário, um sistema gerencial autônomo e competente.
Depois, encantou-se com a recuperação do Ginásio Pernambucano – aproveito para saudar aqui os ex-alunos do GP aqui presentes – onde estudara e que se encontrava, de tão deteriorado, até sem portas, e com teto desabando aos poucos, abandonado pelos últimos e resistentes estudantes. Hoje, o Ginásio voltou aos tempos áureos, formando alunos, em tempo integral, que disputam, em situação de quase igualdade, as vagas nas universidades públicas, com os alunos oriundos do ensino privado.
O Ginásio virou, através de uma parceria que celebrou com o Governo do Estado e um grupo de empresários pernambucanos e paulistas, projeto de educação que hoje é exemplo para vários estados brasileiros: os Centros Experimentais de Excelência, que já chegam a 20 unidades e estão espalhados por todas as regiões de Pernambuco.
Sua obsessão por ajudar Pernambuco e os pernambucanos, porém, não ficou só aí, mesmo já sendo muito. As parcerias que celebrou com o Governo do Estado e que continuam – lemos há poucos dias, com satisfação, entrevista do atual governador, assumindo o compromisso de continuar a experiência dos centros experimentais, fazendo seu número crescer - foram um andamento natural ao trabalho que já iniciara bem antes.
Em março de 1999, por exemplo, conhecedor do sucesso do IQE – Instituto de Qualidade no Ensino, em São Paulo, um órgão de utilidade pública, trouxe a experiência para Pernambuco, com o apoio de empresários locais, quando foi criada a Aliança Empresarial Pró-Educação de Pernambuco com a participação de 22 empresas, unidas pelo propósito de trabalhar pela educação – alguns dos condutores dessas empresas se encontram, inclusive, aqui presentes - e o IQE passou a fazer parte da aliança e estendeu seu trabalho de melhoria do ensino para o interior.
Foi Marcos Magalhães que trouxe para o nosso Estado os programas Se Liga e Acelera, para correção do fluxo escolar, hoje sendo aplicados em 183 municípios, pelo Instituto Airton Senna. Implantou bibliotecas comunitárias em 20 municípios de baixo IDH e o programa de alfabetização Alfa e Beta em 11 municípios do Vale do Capibaribe e agreste. Concedeu bolsas de estudo integrais a 20 jovens pobres, oriundos de escolas públicas, que hoje fazem seus cursos de graduação, por 5 anos, na Universidade de Valladolid, na Espanha. Outros 10 jovens serão agraciados com a mesma bolsa em 2008.
Se algum dia, Pernambuco, a terra de Paulo Freire, viesse a correr risco de orfandade na área de educação, não há dúvida de que Marcos Magalhães não abandonaria a trincheira. Quanto a isso podemos ficar sossegados.
Naturalmente que com esta largueza, este empenho por ajudar, Marcos Magalhães se transformou em fonte de busca por apoio de todos. Essas necessidades o levaram a coordenar outra parceria com o Estado que redundou na construção de 200 casas populares de gesso no Araripe, para abrigar os atingidos pelas enchentes. Pela primeira vez se utilizou tecnologia e material genuinamente pernambucano para esse tipo de habitação.
Na área do meio-ambiente e geração de renda, conseguiu recursos e trabalhou para garantir a construção de unidade de triagem, compostagem e aterro sanitário em vários municípios. No setor de saúde fez a doação de todo o equipamento da UTI do Hospital Regional de Arcoverde, de vários outros equipamentos de tecnologia de ponta para os hospitais de Belo Jardim e Panelas, além de uma Unidade Móvel de Tomografia que atende aos municípios do sertão.
Do mesmo modo o IMIP, no Recife, e o Instituto do Fígado receberam diversos equipamentos, inclusive de ressonância magnética. Dr Marcos é também hoje um dos parceiros na obra de recuperação do prédio ao fundo da Igreja das Fronteiras, onde morou D. Hélder Câmara, e que está sendo preparado para abrigar um museu.
Proprietário de uma residência de campo em Camocim de São Felix, um pobre município do agreste, Marcos Magalhães vem transformando o local. Com a construção de 50 casas populares e um albergue ajudou a erradicar duas favelas do município e urbanizou por completo o povoado de Mondé dos Cabrais, construindo 76 casas para os vizinhos carentes que foram ainda beneficiados com um centro comunitário, uma capela, abastecimento d´água e ampliação da escola.
Agora que deixou a presidência da Phillips na América Latina, assumindo a presidência do Conselho Consultivo e tendo mais tempo para se dedicar ao nosso estado, aqui instalou seu escritório onde dá expediente, acompanha os projetos e só viaja para buscar apoio para a educação.
Naturalmente, que uma pessoa com essa personalidade, este empenho por trabalhar pelo próximo, foi forjada na luta. Luta, por sinal, muito dura. De alegrias, de vitórias, mas de tristezas também. Dores pessoais muito fortes que não gostaríamos aqui de lembrar, em momento de festa e comemoração, mas que, sem dúvida, puderam ser amenizadas pelo carinho de tantos amigos e, particularmente de uma grande mulher, a sua esposa e artista plástica Suzi Magalhães, de sua filha Juliana, da netinha Samanta, do filho Sérgio e do genro Daniel.
Dr. Marcos, por tudo isso que já foi dito, a Assembléia Legislativa não podia deixar de homenageá-lo, acompanhando o que já fez o Governo de Pernambuco que lhe concedeu sua também mais significativa comenda.
A Casa de Nabuco está hoje mais do que nunca regozijada por tirar o chapéu para um batalhador, um lutador pela causa da educação, o maior e mais nobre direito que se pode garantir ao ser humano. Parabéns.
Muito Obrigado.
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