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Data: 14 de outubro de 2008
Discurso sobre Marta Suplicy
Como presidente da Comissão de Defesa da Cidadania desta casa e pessoa profundamente indignada com as atitudes preconceituosas, venham elas de onde vierem e independente do objetivo que tenham, não poderia deixar de, esta tarde, tratar de um assunto que há dois dias causa indignação às pessoas responsáveis deste país e mais notadamente aos defensores dos direitos humanos.
Trata-se da polêmica criada em São Paulo, de forma aviltante, pela candidata a prefeita daquela capital, Marta Suplicy, que numa iniciativa reprovável em todos os sentidos autorizou a ida ao ar de um comercial de TV tentando denegrir o seu oponente, o candidato Gilberto Kassab, com ataques pessoais inimagináveis até pouco tempo atrás.
Menos ainda partindo de uma pessoa até então tida como ultraliberal e sexóloga respeitável como Marta. Lembro que a primeira vez em que estive com Marta foi nesta Casa, ainda como jornalista, em uma das suas vindas ao Recife. Nós repórteres víamos nela, naquela época, e passei a ver durante muito tempo pelas posições que adotava, pelo que defendia em prol das minorias, um exemplo a ser seguido. Ouvíamos mais do que perguntávamos. Queríamos muito mais aprender do que indagar.
Pois bem, Marta, infelizmente, assumiu um tom de arrogância sem limites. No desespero da queda nas intenções de voto, passou de todas as medidas.
O comercial que, graças a Deus, não foi visto aqui pela repugnância que deve ter causado, mostra uma imagem de Kassab enquanto um locutor, em off, pergunta sobre a vida pessoal do candidato, concluindo: "Você sabe mesmo quem é o Kassab? Sabe de onde ele veio? Qual a história do seu partido? Sabe se ele é casado? Se tem filhos?".
Ora, o que interessa a um eleitor saber sobre um candidato: se ele é uma pessoa capaz, um administrador eficiente ou se ele é casado e tem filhos?
Claro que é a primeira indagação, mas Marta, com uma prepotência que mostrou como prefeita, daí ter sido derrotada quando tentou permanecer no poder, foi mais além. Sentindo-se acima das pessoas e das circunstâncias tentou espezinhar Kassab já que, no debate, olho-no-olho, ou pela TV, não está conseguindo vencê-lo.
C
ertamente não logrará êxito em sua investida, pois hoje até o presidente Lula – um verdadeiro "ás" quando decide abandonar seus "aloprados" e Marta, infelizmente, com este episódio está se revelando como um deles – tem se esquivado de defendê-la.
A candidata perdeu o respeito dos segmentos mais responsáveis da política, dando um péssimo exemplo ao país e deixando este pleito muito pior do que quando entrou.
Ontem, o respeitável jornalista pernambucano e de alto conceito nacional, Ricardo Noblat, analisou bem a pisada de bola de Marta, ressaltando que o PT "fez no Governo e faz na política tudo que condenou. Até mesmo copiar Collor".
Na verdade, quem não se lembra quando Collor usou uma ex-mulher de Lula, na TV, para desestabilizar o então opositor e revelar ao país a existência de Lurian? Que objetivo teve Collor com isso? Desestabilizar Lula que naquele momento enfrentaria, como enfrentou, em um debate na TV. A revelação feita por Collor, certamente, não mudaria o resultado eleitoral em si, mas mudou porque Lula apareceu no debate completamente abatido, acanhado, medroso, o que fez as pessoas se afastarem mais dele.
Pois bem, sabe qual foi o propósito de Marta com a tão condenável propaganda? Quebrar emocionalmente Kassab a quem enfrentaria em um debate na TV. Isso não foi nenhum analista quem falou, mas os próprios coordenadores de sua campanha, conforme está estampado nos jornais. Quem assistiu ao debate revelou que Kassab, porém, embora inseguro nos dois primeiros blocos demonstrou simplicidade e humildade, e Marta acabou perdendo por ter se revelado prepotente e raivosa.
Na verdade, além de não ter ganhado o debate para Kassab, Marta hoje recebe a condenação de todas as pessoas de respeito em nosso país. Inclusive do seu ex e do seu atual marido.
Os jornais de São Paulo estampam hoje que o senador Eduardo Suplicy, seu ex-marido, fez a seguinte declaração sobre o episódio: "com toda a história dela e com o posicionamento que tem adotado ao longo da vida, Marta deveria saber que uma pessoa pode ser solteira a vida toda e ter um comportamento exemplar na vida profissional e política. As pessoas escolhem um candidato pelo que de positivo possa realizar".
O atual marido de Marta, Luís Favre, também correu para o seu blog e escreveu: "aqui neste blog tenho censurado qualquer ataque ou referência à vida privada de qualquer candidato. Às suas relações afetivas, privadas e que não dizem respeito à opinião pública. Aqui continuará assim".
A jornalista Dora Kramer escreveu em sua coluna "que o PT perdeu de vez a tramontana na presente disputa está claro. O surpreendente e ainda carente de explicação é o partido não enxergar o potencial de autodesmoralização contido nesse tipo de estratagema". E conclui: "Marta finge que não sabe a respeito do que fala sua campanha porque a posição preconceituosa e enrustida não cabe bem em quem fez a vida inteira militância no lado oposto". Conclui que o PT perdeu "junto com as esperanças, as estribeiras".
Mas a ficha de Marta parece não ter ainda caído. Logo que a propaganda foi ao ar ela apareceu fazendo-se de desentendida. Disse que não sabia, como fez Lula com o mensalão. Depois alegou que apenas queria se referir ao passado político de Kassab e que a questão de sua vida pessoal fora um artifício dos marqueteiros.
Agora a conversa é outra. Novamente de forma prepotente, a campanha de Marta retirou o comercial do ar alegando que ele já tinha exercido o papel para o qual tinha sido criado. Só Deus sabe qual foi esse papel.
Que Marta tem se comportado mal nesta campanha não é do desconhecimento de ninguém. Até em conversa com pastores evangélicos na frente do presidente Lula ela respondeu de forma arrogante, quando indagada se processaria novamente as pessoas que a atacassem. Disse que sim e o próprio presidente teria, segundo a imprensa, lhe pedido calma.
É conhecida a desconfiança de alguns pastores em relação a Marta pela sua defesa do aborto e de outros avanços vistos com maus olhos por parte das igrejas evangélicas, sobretudo.
A candidata também atacou a imprensa dizendo que tem sido tratada com preconceito por conta dos dois casamentos. Estranho ela dizer isso quando fez questão de se vestir de noiva e posar para a revista Caras quando casou com Favre, tornando público um ato que poderia ser privado.
Mais uma incoerência de sua parte: atacar Kassab e se voltar contra os que a atacam.
Esperamos que o povo de São Paulo dê a Marta nas urnas a resposta que ela merece. Ela poderia ter evitado tudo isso, mantendo intacto, mesmo com uma derrota, o seu expressivo patrimônio eleitoral, político e pessoal, além de sua fama de política respeitável. Preferiu, porém, o caminho da perdição, como se diz da pessoa que tomou o bonde errado, buscou o lado do mau.
Como mulher, sobretudo, lamento profundamente que Marta, um exemplo de pessoa desprendida, aberta, respeitadora, defensora das minorias e dos direitos humanos, tenha chegado aonde chegou.
Pelo que era e pelo que se mostrou, ela acaba de rasgar sua biografia, o que é uma pena, sob todos os aspectos.
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