Terezinha Nunes - Deputada Estadual
   
 
 
 

Data: 13 de outubro de 2009
Discurso em homenagem ao professor Jorge de Souza

O artigo 271 do Regimento desta casa preceitua que a concessão do título de cidadão de Pernambuco objetiva “reconhecer o trabalho de pessoas que, em qualquer área de atuação, desenvolvam ou desenvolveram atividades em prol do Estado de Pernambuco”.

Desde que foi criado, o título já premiou cidadãos que fizeram obras de pedra e cal importantes e reconhecidas pelos pernambucanos, mas, sobretudo, destacou a ação dos que, muito mais que obras concretas, demonstraram, em campos diversos, um amor incontido pela terra que os abrigou e que eles próprios escolheram para fixar residência.

Hoje, por decisão unânime dos seus 49 deputados, esta casa reconhece como pernambucano o professor Jorge de Souza que, além de feitos em diversos campos, legou ao nosso estado o mais completo poema já escrito sobre nossa riquíssima história e cultura, uma peça única e expressão síntese de tudo que Pernambuco já produziu de exemplo para o Brasil.

O mestre Nilo Pereira, potiguar e figura ímpar que Pernambuco abrigou e reconheceu como cidadão, disse certa vez que os pernambucanos adotados gostam mais desse estado dos que aqui nasceram.

Penso, professor Jorge, que o Sr. é uma das maiores provas de que Nilo tinha razão. Estudar e traduzir a história do estado como Sr. traduziu só pode ter uma explicação: uma enorme admiração e respeito pelo que aqui encontrou e presenciou.

Carioca do bairro da Penha, Seu Jorge, como comumente é chamado, trilhou um longo caminho até trazer a Pernambuco a paixão que carrega por tudo o que faz. Desde cedo, trabalhou para ajudar os pais, Jorge, cobrador de bonde, e Alda, sem nunca se afastar dos estudos. Pelo contrário. Sempre acreditou que seria através destes que poderia alcançar uma melhor condição de vida e, assim, proporcionar tranqüilidade a sua família.

Os estudos permitiram que viesse à tona todo seu potencial, tendo sido sempre um aluno de matemática brilhante, não conhecendo outra nota senão 10. Com espírito autodidata, era comum aprender os assuntos antes mesmo de eles serem dados pelos professores, o que o fazia ser muito procurado pelos seus colegas de turma que sempre pediam ajuda.

Foi também nessa época e impulsionado pelo seu ímpeto por conhecimento que descobriu, através de uma edição do Evangelho Segundo o Espiritismo encontrada na casa de amigos, o Espiritismo, doutrina pela qual sentiu uma profunda identificação e que passou a ser parte essencial de sua vida, tornando-se, desde então, um colaborador permanente.

Seu fascínio pelos números o levou a cursar a Escola Nacional de Ciências Estatísticas, graduando-se em 1964, e obtendo o mestrado em Estatística Matemática, no Chile.

Trabalhou como consultor-sênior de grandes organizações públicas e privadas como, por exemplo, a Infraero e a Companhia de Cigarros Souza Cruz, e lecionou em cursos de Estatística, Matemática e Economia, tornando-se em 1972, Doutor Livre-Docente em Pesquisa Operacional, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diplomado pela Escola Superior de Guerra no curso de Altos Estudos de Política e Estratégia.

Neste mesmo ano, foi trabalhar em Brasília, atuando como consultor-legislativo do Senado Federal e lecionando na Universidade de Brasília onde viria a se tornar Professor Titular de Estatística.

Um ano após sua ida a Brasília, recebeu um convite para participar em um evento promovido pelo Condepe, vindo, pela primeira vez, a Pernambuco. Na ocasião, conheceu a Ilha de Itamaracá nos seus tempos áureos. O encanto foi tamanho que lá comprou um apartamento para veranear, fugindo, sempre que podia, de sua atribulada vida na capital do País.

Foram anos de uma relação de encanto com Pernambuco. Apaixonou-se pelas cores e brilhos de nossa gente; pelos ritmos, sabores e palavras de nossa cultura; pela nossa história, pelos nossos heróis e nossa tradição.

Mas o destino não quis que seus laços com Pernambuco ficassem fragmentados em momentos de veraneio. Pelo contrário. Em uma das suas vindas a Itamaracá, o destino o colocou bem embaixo da sacada do apartamento vizinho ao seu, no momento exato em que sua moradora lançava um balde d’água para limpar a varanda, deixando-o todo molhado.

Foi, através dos olhos turvos dessa água, que ele viu, pela primeira vez, sua esposa Marta. O destino quis, sim, que o coração de Seu Jorge ficasse para sempre encantado e apaixonado por uma pernambucana. Fonte eterna de inspiração e para quem compôs o soneto “Amor Maduro”, que tem, em seus versos finais, a marca da eternidade:

Apaixonados...nós nisso quedamos,
enquanto Cronos se perde nos anos,
Eros nos acha num céu de ternura!

Morou em Brasília por mais alguns anos até se aposentar da UnB, vindo lecionar no curso de pós-graduação do departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco, em 1995. Fixou, assim, residência no Recife, na busca de uma vida mais tranqüila, sujeita a poucas pressões profissionais como viveu nas múltiplas atividades exercidas desde jovem.

Aqui, continuou sua dedicação ao Espiritismo, sendo presidente há 12 anos da União Espírita Discípulos de Jesus localizada em Peixinhos, Olinda, onde realiza ações sociais. Também dirige e apresenta diversos programas sobre a Doutrina em rádios comunitárias e é expositor espírita com ampla atuação em todo o Grande Recife.

Entregue à sedução de nossa terra e nosso povo, nasceu sua obra-prima, o poema Retrato de Pernambuco, na qual declara:

Banhado de Pernambuco...
eu nunca mais vou secar;
batizei-me nessas águas...
açudes de mungunzá;
vesti-me dos esplendores,
variações multicores
da cultura popular.
Banhado de Pernambuco...
não vou despernambucar!

Este hino de amor a Pernambuco, composto em setenta e duas estrofes e perfazendo seiscentos e trinta versos, nos faz viajar através de tempos que não voltam mais. Com um exemplar domínio das palavras, descreve das coisas e das gentes de Pernambuco citando desde a nossa riquíssima culinária, cantada e decantada por tantos como Gilberto Freyre e Ascenço Ferreira, passando pelos sons, ritmos e danças do povo pernambucano.

O poema foi tratado, também, cinematograficamente como documentário pelo cineasta Anselmo Alves. O vídeo-poema se vale de um rico acervo de imagens por onde desfilam personagens como Josué de Castro, Frei Caneca, Luiz Gonzaga, Dom Helder Câmara, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto.

O professor, poeta e escritor Jorge de Souza, apesar de nascido carioca é de Pernambuco na alma e coração e, através de seu amor pelo nosso estado, cantado nas suas estrofes, conseguiu como poucos captar e transcrever o que está guardado na alma e orgulho de todos os pernambucanos.

Talvez seja a hora de mudarmos apenas uma palavra no último verso do seu poema Retrato de Pernambuco:

Por mim já sou Pernambuco,
meu novo jeito de ser;
tangido por seu aboio
como gado de tanger.
Crismado de sertanejo,
rendo graças e festejo
um direito de escolher.
Por mim já sou Pernambuco
[e agora com] certidão de nascer!

Parabéns!

   
 
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Jornalista responsável Margarette Andrea