Terezinha Nunes - Deputada Estadual
   
 
 
 

Data: 11 de junho de 2008
Sorte na Política

Em política – alguém já escreveu – não basta ter talento, carisma ou disciplina ideológica. É preciso também ter uma boa dose de sorte.

Navegando neste raciocínio, e na certeza de que cabe a alguns o fardo mais pesado e a outros os louros das conquistas conseguidas, o Brasil e Pernambuco vivem hoje o exemplo mais cabal do que grandes governantes, verdadeiros estadistas, podem fazer para equilibrar e colocar no rumo uma nação e um estado, e o quanto se beneficiam os que os sucedem, nem sempre preparados para reconhecer, com humildade, o gesto ousado dos seus antecessores, como se o mundo tivesse começado hoje.

Falamos isso no esteio do que representou para o Brasil no mês passado o pronunciamento de duas das três mais importantes agências mundiais de análise de risco. As agências Standard & Poor's e Fitch Ratings declararam o Brasil como um país de baixo risco para os investidores, colocando o nosso país no grau de investimento e atraindo investidores para comprar ações das empresas nacionais.

O mercado usa o indicador de risco para medir a capacidade de um país emergente honrar seus compromissos financeiros. Agora o Brasil está no mesmo patamar da Índia e do Peru, no que se refere à capacidade de atrair investidores e bem mais próximo de outros países emergentes como África do Sul, México e Rússia.

O atual presidente festeja esse reconhecimento. Um motivo de orgulho, sem sombra de dúvida, mas é necessário indagar porque isso aconteceu.

Na verdade, o presidente Lula governa o país com o piloto automático ligado por Fernando Henrique, beneficia-se por uma conjuntura favorável no mercado internacional e navega em céu de brigadeiro, como costuma-se dizer na linguagem comum da análise política nacional.

A estabilidade que temos hoje tem como origem o controle da inflação realizado por Fernando Henrique. Com uma nova moeda e um Banco Central operacional e independente, o país deixou de vivenciar taxas de inflação de quatro dígitos para conviver com taxas de um dígito ao ano. De uma inflação de 2.490,99, em 1993, chegou-se à deflação de 1998 e à inflação num nível de primeiro mundo de 8,64% ao ano, em 1999, no esteio do Plano Real.

O Governo Fernando Henrique teve pulso para impedir que o Brasil quebrasse, mas não ficou por aí. Seu mandato foi marcado pela consolidação da estabilidade econômica, por reformas na economia, previdência social e administração pública, pela democratização do acesso às políticas sociais com a criação de programas pioneiros como o bolsa-escola, o vale-gás e o bolsa-alimentação, além do início da reforma do estado e do combate ao desperdício que representou a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Atacado duramente pelo PT, que hoje experimenta os louros econômicos de sua gestão, FHC conseguiu, com responsabilidade, que o Congresso Nacional quebrasse monopólios estatais nas áreas de comunicação, o que, definitivamente, resolveu o gargalo da telefonia, e a eliminação de restrições ao capital estrangeiro.

O Brasil conseguiu com a reconquista da democracia nos anos 80 e a conquista da estabilidade econômica no governo FHC, nos anos 90, abrir perspectivas jamais vistas no que se refere ao combate às desigualdades sociais. Afinal, distribuir renda é muito mais controlar a inflação, fazendo com que os pobres se beneficiem do fim da ciranda financeira que a todos vitima, mas que tem efeito arrasadores sobre os mais carentes, do que apenas estabelecer políticas compensatórias de curto prazo.

E é neste patamar que se vê a sorte que teve o presidente Lula de suceder uma administração responsável. Tivesse o destino feito com que o atual presidente vencesse as eleições lá atrás, nas diversas vezes em que disputou, e , certamente, ele não estaria agora, apesar dos escândalos que cercam o seu Governo, deixando a entender que tudo começou quando ele assumiu a administração, com a prepotência característica dos que carregam, mesmo que veladamente, a vocação autoritária.

Aqui em Pernambuco acontece o mesmo. A sorte, da mesma forma, que bafejou Lula, debruçou-se sobre o governador Eduardo Campos que em 1998 deixara a administração estadual numa crise como há muito não se tinha notícia.

Em oito anos de trabalho árduo, que lhe rendeu diversas vezes o título de melhor governador do Brasil, Jarbas arrumou a casa, colocou as contas do estado em dia; inaugurou um programa de obras de infra-estrutura exemplar e abrangente, conquistando os investimentos que se iniciam através da Refinaria e do Estaleiro, só para citar esses, e recuperou a auto-estima dos pernambucanos, sem o que o esforço poderia resultar em vão.

Jarbas investiu mais de 1,2 bilhão de reais em pavimentação e restauração de estradas; duplicou a BR-232; aplicou 280 milhões de reais em eletrificação rural atendendo a mais de 123 mil propriedades; concluiu o Porto de Suape com um investimento de 171 milhões de reais; ampliou o Aeroporto dos Guararapes para atender a 3,5 milhões de passageiros/ano, sem contar com as reformas e melhorias dos aeroportos de Petrolina e Caruaru e outros 19 aeródromos. Na área de saneamento, investiu mais de 500 milhões de reais na implantação de 1.759km de adutoras, atendendo a 2 milhões de habitantes; aumentou em 30% a oferta de água à RMR e duplicou a quantidade de residências atendidas na zona rural. Reformou e ampliou 492 escolas (45% da rede estadual), implantou 20 Centros de Ensino Experimental, atendendo a 13.000 alunos. Duplicou o número de leitos de UTI, implantou o PROCAPE, investiu mais de R$70 milhões na construção e reforma de 35 unidades hospitalares, reduziu a mortalidade infantil de 33,9 para 19,17.

Recebendo o estado com mais de 25% da receita comprometida com a dívida, três salários atrasados, crises graves no abastecimento d`água, Jarbas conseguiu reduzir em apenas 10,7% o comprometimento da receita com a dívida. Se, no início de 1999, a capacidade do estado de gerar poupança era negativa, o que impossibilitava qualquer perspectiva de recuperação econômica, em 2006 o estado registrava, no final do ano, mais de R$ 800 milhões de poupança positiva. Naquele ano, o estado investiu mais de 5% de sua receita corrente líquida, garantindo a contra-partida para os investimentos que estavam chegando. Em 1998, a despesa líquida com pessoal equivalia a mais de 70% das receitas correntes líquidas. Jarbas re-equilibrou as contas entregando o governo com um comprometimento de 55%, valor abaixo da linha considerada limite prudencial de acordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Não há dúvida de que o presidente Lula soube, até agora com maestria e fugindo do radicalismo do PT, manter a política econômica de Fernando Henrique. Aliou a sorte a uma posição de responsabilidade que, antes de apagar o que o ex-presidente que o sucedeu realizou no país, demonstra, de forma cabal, que Fernando Henrique realizou o que o Brasil precisava e merecia.

O avanço social exige uma base econômica sólida – situação arduamente conquistada nas gestões anteriores do Brasil e de Pernambuco. Espera-se que o atual presidente consiga enxergar mais do que o seu umbigo e promova, como faria um estadista, as reformas que o Brasil está precisando.

Afinal, da mesma forma que as agências de risco deram o grau de investimento ao Brasil, reconhecendo a estabilidade econômica, alertaram para os problemas que ainda precisam ser resolvidos. Os principais são o elevado nível da dívida pública e as reformas que o país reclama e para os quais o presidente não tem manifestado desejo de fazer andar.

Querendo atribuir a si o que foi feito, o presidente Lula declarou em Santo André, em maio deste ano, que presidente que tem sorte é o que ganha eleição. Nós diríamos: É o que ganha na hora certa como ganhou Lula e como ganhou Eduardo.

Esperamos que tanto um quanto o outro desçam do Olimpo e enxerguem, como os verdadeiros sábios, um palmo à frente do nariz e consigam produzir algo de novo, de avançado, de forma a deixarem aos sucessores pelo menos grande parte do que herdaram dos que sucederam. Não sendo assim, e a volta da inflação já nos dá medo, o que nunca pensamos viesse a acontecer tão cedo, poderemos amargar mais rápido do que imaginávamos cenários que em um passado não muito recente enfrentamos e vencemos a custa de muito sacrifício.

E neste momento, a sorte que tanto ajudou a Lula e Eduardo, pode nos abandonar.

   
 
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Jornalista responsável Margarette Andrea