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Data: 10 de outubro de 2007
Pronunciamento sobre segurança pública
Eleito com a promessa de resolver os problemas do estado e de dar especial atenção ao interior, o governador Eduardo Campos, iniciou, de forma abrupta e inexplicável, na semana passada, o desmonte do sistema de segurança das estradas do interior do estado, notadamente da região do São Francisco.
Em poucos dias foram desativados 22 dos 28 pontos de bloqueio das estradas sertanejas e os seis restantes não mais farão blitzes, como era normal. O comandante da Diretoria-Geral de Operações da PM, no Interior, coronel Antonio Carlos Tavares Lira, afirmou, pasmem os senhores, que esses seis locais, como possuem edificações e não trailers, servirão como “postos de estacionamento de viaturas”.
Por conta dessas medidas, nove cidades que, no passado, eram rota de bandidos e deixaram de ser após os bloqueios, ficaram sem segurança em suas estradas. São elas: Arcoverde, Serra Talhada, Salgueiro, Ouricuri, Petrolina, Petrolândia, Floresta, Cabrobó e Belém do São Francisco.
Num primeiro momento parecia que havia um motivo especial para o desmonte da operação que recebeu o nome de Paz nas Estradas, no Governo anterior, e alcançou grande dimensão ao acabar com os assaltos que aterrorizavam quem viajava de carro até o município de Petrolina.
Mas não, colegas deputadas e deputadas. Sabe qual foi o motivo apontado pelo Governo para acabar com o programa? O fato de um trailer ter sido alvejado por bandidos no início de setembro com a morte do soldado Cícero José Xavier Guimarães, em Belém do São Francisco. Nem mesmo o fato de as investigações terem concluído que o soldado Cícero foi morto com balas saídas da arma de outro PM, Ranilson Faustino da Silva, que inclusive está preso, o que demonstra que se tratou de uma luta entre PMs, evitou o fim da segurança nas estradas.
O pior foram as explicações dadas também pelo coronel Tavares Lira. Disse ele, com todas as letras, que os pontos de bloqueio foram desativados para segurança dos PMs . “ pode-se dizer que foi uma medida de segurança para o efetivo – disse o coronel ao Jornal do Commércio e completou: “ Queremos garantir a vida dos nossos homens. Isso já estava em nossos planos mas a morte de um companheiro acelerou o processo”.
Ora, a entender-se ao pé da letra o que disse o comandante, o Governo e a PM entregaram os pontos. Como não conseguem vencer os bandidos, estão se retirando da linha de combate.
Para ser fiel à estória sobre o pai que , insatisfeito com o namoro da filha no sofá de sua casa, vendeu o sofá, pode-se dizer que o Governo “ retirou o sofá da sala”. Como não consegue conter a violência, nem mesmo contra a PM, saiu da linha de combate.
Há de se perguntar, então, e como fica a população? Voltarão os comboios nas estradas sertanejas, que já eram coisa do passado? Que medidas serão adotadas para proteger os que viajam de automóvel e que agora estarão mais inseguros ?.
Quanto a isso o Governo e o governador parecem não se importar. Preferiram dar atenção a um movimento orquestrado pelos próprios PMs para sair das estradas. Um movimento corporativo sem precedentes.
O diretor da Associação de Cabos e Soldados, Luís Melo, comemorou a desativação dos trailers, saudando-a como “ uma conquista da categoria”, como se estivesse exibindo um troféu após uma negociação sindical. “ Aquilo era uma invenção, só para que o policiamento fosse visualizado” – disse.
E concluiu: “ isso nos dará mais sensação de segurança. Nós não vamos ficar mais imobilizados esperando a morte chegar”.
E eu pergunto, colegas deputados, onde estamos? Afinal quem deve ter sensação de segurança é a população ou a PM? Quem está invertendo os papéis?
Isso o Governo está obrigado a explicar à população. No momento em que a PM diz que prefere se recolher para não enfrentar os bandidos e as autoridades cruzam os braços e deixam o corporativismo dominar o sistema de segurança, salve-se quem puder.
Não estamos aqui para defender a luta dos PMs até à morte mas também não tem explicação transferir para a população, esta sim necessitando de segurança, o ônus da absoluta falta de condições de lidar com uma questão como essa.
Se é preciso dar mais tranqüilidade aos PMs que trabalham nas estradas que se dê, que se encontrem alternativas. Mas a melhor alternativa jamais será a de simplesmente se render e deixar que os bandidos atuem com desenvoltura nas estradas sertanejas, como no passado.
Neste momento é de se temer pela sorte dos que estão sendo obrigados a cruzar as estradas do sertão, sobretudo à noite, enfrentando quilômetros e quilômetros de quase deserto, sem perspectiva de encontrar um só PM pelo caminho. Até porque o mesmo coronel Lira que registrou como boa a desativação da segurança nas estradas já disse que os policiais que estavam na operação vão ficar atuando nas cidades. Nos centros urbanos.
E concluímos: quem está na zona rural que reze a Deus para continuar vivo.
A operação Paz nas Estradas que movimentava 480 PMs no interior vinha trabalhando de forma efetiva para reduzir a violência. Em 2006 realizou 104 prisões em flagrante, apreensão de 92 armas e 500 quilos de maconha, realização de 770 blitzes, 9.823 bloqueios e abordagem de 209 mil pessoas e de 580 mil veículos.
Em 2007, nesses nove meses de trabalho, não foi diferente. Foram feitas 101 prisões em flagrante, 159 armas foram apreendidas, assim como 480 quilos de maconha, foram realizadas 611 blitzes, 8050 bloqueios, abordagem de 180 mil pessoas e de 480 mil veículos.
Diante desses números é necessário indagar. E sem essas medidas, o que vai acontecer? Sinceramente, é impossível saber mas, infelizmente, não deve ser boa coisa. Um Governo que simplesmente abandona as estradas sertanejas à própria sorte e a população que nela trafega também deve saber muito bem que será cobrado por isso.
Eu só espero que isso não venha acarretar a morte de muita gente que, necessitada de buscar seu sustento, com segurança ou não, vai continuar se aventurando nos caminhos do medo de nossas rodovias. Afinal, desolação é o que mais tem sido reservado aos sertanejos em anos seguidos de provação e agora sem direito sequer ao mais elementar princípio constitucional, a liberdade de ir e vir. Com segurança e policia para dar tranqüilidade a quem dela realmente precisa.
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