|
Data: 06 de março de 2008
Pronunciamento feito na celebração da Data Magna
A Assembléia Legislativa de Pernambuco é sede hoje das comemorações da mais importante data do nosso estado, a Data Magna. Aqui neste prédio que tem o nome do nosso maior tribuno e do mais importante parlamentar da história pernambucana, Joaquim Nabuco, foi aprovado por unanimidade no final do ano passado projeto que instituiu o 6 de março, quando eclodiu a Revolução Pernambucana de 1817, como o dia mais significativo da nossa brilhante história.
Apesar de ser, reconhecidamente, um dos estados brasileiros onde o espírito revolucionário mais se fez presente, sobretudo na época do Brasil Colônia, tendo liderado vários movimentos libertários, Pernambuco acabou sendo o último estado a escolher sua Data Magna.
É próprio dos verdadeiros sábios, por humildade, não assumir seus próprios méritos. E Pernambuco como que se esquivou todos esses anos de comemorações.
Coube ao destino a concretização desse sonho no ano de 2008. O dia chegou por decisão legítima dessa casa e, de forma inédita em nosso país, a partir de uma consulta popular da qual participaram mais de 100 mil pessoas ouvidas através dos meios de comunicação e que apontaram, entre cinco datas selecionadas pelo Instituto Histórico estadual, a Revolução de 1817 como o mais importante dos nossos dias.
"A única revolução brasileira digna desse nome", na visão do mestre Oliveira Lima, a Revolução de 1817 sintetiza o espírito popular e libertário pernambucano que se manifesta no Quilombo dos Palmares, passa pelo sentimento nativista da Restauração Pernambucana, quando daqui foram expulsos os holandeses, e pela Proclamação da República de Olinda, no ano de 1710.
Pode-se dizer, sem sombra de dúvida, que, em 1817, cinco anos antes do 7 de setembro, o Brasil começou, em Pernambuco, o seu movimento de independência. O 6 de março inaugurou a democracia em nosso País, com liberdade religiosa, de pensamento e de imprensa, num momento em que esses direitos sequer eram discutidos no Brasil. De tão forte na nossa memória, a Revolução de 1817 nos legou também o nosso mais querido símbolo, a nossa Bandeira, hoje vestida com orgulho por crianças e jovens, sobretudo em épocas de festividades populares, como o Carnaval.
Durante sua vigência tivemos uma nova constituição, governo próprio, marinha, exército, polícia e até embaixadores designados no exterior. Deixando a modéstia de lado, não há sombra de dúvida de que esta Revolução muito mais do que a Inconfidência Mineira, celebrada hoje como data nacional, foi o primeiro grito contra as desigualdades que tanto maculam a história do nosso País.
Aqui se juntaram todas as classes sociais, cansadas do domínio português que tratava a ferro e fogo os que levantavam a voz contra o seu jugo, em busca da liberdade. Trabalhadores rurais, artífices, escravos, comerciantes foram às ruas lutar contra a opressão.
A reação a ela não poderia ser menor do que o ímpeto que levou à eclosão do movimento. Se a Inconfidência Mineira foi reprimida pelos portugueses ao custo de dois mortos e media dúzia de degredados, aqui, em 1817, mil e seiscentas pessoas perderam a vida e mais de oitocentos foram degredados.
O Seis de Março produziu o maior número de heróis e mártires pernambucanos como Cruz Cabugá, Padre Roma, Vigário Tenório, Domingos Martins e o Leão Coroado, entre centenas de outros, incluindo uma mulher, Bárbara de Alencar, a primeira presa política brasileira.
Outros heróis como Frei Caneca, Gervásio Pires e Abreu e Lima também receberam o seu batismo em 1817, tendo o Frei Caneca liderado em 1824 a Confederação do Equador, quando foi executado por arcabuzamento, já que os carrascos se recusaram a enforcá-lo.
Há que se perguntar, diante da proclamação dos feitos da Revolução de 1817, qual o motivo de a Assembléia Legislativa ter decidido entregar a medalha do Mérito Democrático e popular Frei Caneca, no dia de hoje, aos governadores de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Na verdade, o movimento de 1817, apesar de liderado por Pernambuco, teve a participação da Paraíba e do Rio Grande do Norte, que também tiveram seus mortos e seus heróis surgidos durante sua vigência. Com a incorporação desses estados, a revolução passou a abrigar uma região onde residia, na época, um terço da população brasileira. Nesses estados viviam l milhão dos 3 milhões de pessoas residentes em nosso país. Só em Pernambuco, moravam "quinhentas mil almas", como registraram os historiadores de então.
Na Paraíba, a revolução teve por característica um enorme espírito libertário e democrático. Os heróis paraibanos chegaram a discutir a participação das mulheres na política, no papel de cidadãs, coisa que não tinha sido cogitada nem na Revolução Francesa, hoje símbolo da liberdade em todo o mundo. O movimento brotou no interior, em Pombal e Itabaiana, e logo chegou à capital, a então vila de Nossa Senhora das Neves, sendo recebido com grande entusiasmo pelo povo. Entre os seus mártires destacaram-se Amaro Coutinho, Inácio Leopoldo e o valente capitão José Peregrino de Carvalho, executado no Recife com a idade de apenas vinte anos.
No Rio Grande do Norte, a revolução também começou no interior, em Goianinha, estendendo-se até Natal e daí espalhando-se por todo o estado. Lá se destacou a nobreza e a valentia de heróis como André Albuquerque Maranhão que, embora fosse homem de posses, gozando de todo o conforto e prestígio, empenhou-se a fundo em nome da Liberdade e da Democracia, e por ela sacrificou sua vida. Mesmo depois de esmagado em Natal, o movimento se prolongou pelo interior na chamada República de Porto Alegre.
Quanto ao Frei Caneca, que dá nome à medalha hoje entregue, é, todos reconhecem, o mais significativo dos heróis pernambucanos em todos os tempos, a ponto de no ano passado ter sido alçado à categoria dos heróis da Pátria, por proposta do senador Marco Maciel.
Destacado na Revolução de 1817 como um dos conselheiros dos revolucionários, Frei Joaquim do Amor Divino Caneca chegou a ser preso e levado a cumprir pena em Salvador. Seu irredentismo, porém, não arrefeceu, mesmo diante de toda a repressão que se seguiu à derrubada dos revoltosos. Jornalista, tendo fundado o jornal Typhis Pernambucano, professor de geometria, Frei Caneca passou a organizar outros movimentos revolucionários.
Foi, na expressão do historiador Evaldo Cabral de Melo, o organizador do primeiro governo autônomo da região nordeste, quando, em 1821, na Convenção de Beberibe, os pernambucanos derrubaram o último governador português do estado e, em seu lugar, empossaram Gervásio Pires. Em 1824, novamente Frei Caneca se levanta, ainda a favor da independência de Pernambuco, já que o Brasil fora declarado independente dois anos antes, e lidera a Confederação do Equador.
A reação a este movimento se abateu não só sobre os homens e mulheres aqui residentes mas custou ao próprio estado a perda de parte do seu território, com a subtração da Comarca do São Francisco, que passou a pertencer à Bahia.
A Revolução de 1817 e o Frei Caneca ficaram cravados na história do nosso estado, como um grito de liberdade que até hoje ecoa.
É atribuída a um dos revolucionários uma frase que resume a importância do movimento que nos outorgou a primeira constituição. Segundo ele, o 1817 "deveria ser inscrito em letras de ouro no coração de todos os brasileiros". Podemos estar longe disso em função do desenvolvimento republicano brasileiro que fez do sul e sudeste as regiões escolhidas para os investimentos, em detrimento das áreas mais pobres.
Em 1917, porém, quando a Revolução fez 100 anos, um feriado nacional foi decretado para lembrar os seus feitos. Daqui a nove anos teremos seu bicentenário e, quem sabe, a veremos, pela força pernambucana, entre as datas mais comemoradas de nosso País.
|