Terezinha Nunes - Deputada Estadual
   
 
 
 

Data: 04 de setembro de 2008
Discurso em homenagem a Josué de Castro

Pioneiro na luta pelos direitos humanos e pela liberdade, Pernambuco abrigou em seu território, desde a época do Brasil Colônia, alguns dos principais ícones brasileiros na área das ciências humanas e sociais.

De tão grandes, pela dimensão humanitária, capacidade de luta e de realização social, esses verdadeiros heróis pernambucanos por vezes parecem não caber em um estado de conformação geográfica peculiar, cujas terras estendem-se como uma língua estreita por uma extensão de quase 940 quilômetros e apenas 184 quilômetros de largura.

Felipe Camarão, Matias de Albuquerque e Henrique Dias na época da Restauração Pernambucana; Frei Caneca, na Revolução de 1817 e na Confederação do Equador; Joaquim Nabuco, um dos maiores abolicionistas brasileiros; são algumas dessas expressões às quais viriam se juntar depois um Gilberto Freyre, na sociologia; um Luís Gonzaga, na música; um Paulo Freire na educação; um Dom Hélder Câmara, nos direitos humanos – este um cearense pernambucanizado; um Barbosa Lima na imprensa; e o nosso homenageado desta noite, o grande cientista e humanista, Josué de Castro.

Médico, professor, geógrafo, sociólogo, escritor, político e intelectual, Josué nasceu há 100 anos, no dia 05 de setembro de 1908, no Recife, mais precisamente, no bairro da Madalena, na época rodeado pelos mangues que viraram cenário de seus estudos. Filho de Manoel Apolônio de Castro e Josefa Carneiro de Castro, fez o curso secundário em nossa capital e aos 15 anos, de forma precoce, ingressa na Faculdade de Medicina, na Bahia, transferindo-se depois para o Rio de Janeiro onde conclui o curso aos 21 anos.

Homem bem maior do que seu o tempo, logo cedo ele foi descoberto pelo mundo. Ainda como médico recém-formado foi admitido como estagiário na Universidade de Columbia e no Medical Center, em Nova Iorque, Estados Unidos. Essa precocidade o fez abordar nas primeiras décadas do século XX temas que só hoje são, verdadeiramente, encarados como preocupação de toda a sociedade como a preservação do meio-ambiente e a violência urbana.

Essa condição de cidadão do mundo que o acompanhou durante toda a vida, nunca o levou a esquecer o seu Recife, a cidade dos caranguejos tão retratados em sua obra, e nem o seu estado, Pernambuco.

Foi, na verdade, como nordestino, filho do homem do sertão e neto de retirantes da seca de 1877, que ele transformou a problemática da fome em tema principal de sua vida.

É importante notar que esta opção foi também intencional e teve caráter político. Josué visou, através dela, agitar tanto o meio acadêmico como o meio político nacional e internacional que por anos viraram as costas para este grave problema que afeta grande parte da população. Assim, tornar pública a existência da fome através da denúncia de suas causas s conseqüências, foi o grande objetivo de sua obra.

O seu livro Geografia da Fome, publicado em 1946, quando tinha 38 anos, acabou traduzido para 25 idiomas e o alçou a um grau tão alto de expressão nacional e internacional que acabou recebendo três indicações ao Prêmio Nobel da Paz. Conquistou também vários prêmios internacionais como o Roosevelt, da Academia de Ciências Políticas, dos Estados Unidos, em 1952, e o Prêmio Internacional da Paz, em 1954, por suas obras e ações de combate à fome no mundo.

Geografia da Fome representou um manifesto contra uma mazela que, então enxergada do ponto de vista local, sempre foi, na verdade, um flagelo mundial. Antes e depois desse grande livro, Josué escreveu outros na mesma temática como “Alimentação e Raça”;  “Geopolítica da Fome”, “Livro negro da fome”, “Homens e Caranguejos” e “A explosão demográfica e a fome no mundo”.

A universalização dos seus achados levou esse cidadão “interessado no espetáculo do mundo”, como ele mesmo disse, a ocupar cargos diplomáticos, como o de presidente da FAO, de 1952 a 1955.  Foi também embaixador do Brasil junto às Nações Unidas, em Genebra. Acostumado a viver com um pé no mundo e outro em Pernambuco, elegeu-se deputado federal do nosso estado de 1956 a 1962, tendo sido, na segunda vez, o mais votado do Nordeste. É o patrono do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – Consea, instalado em 30 de janeiro de 2003.

Embora tenha andado pelo mundo, Josué dizia que foi no Recife onde conheceu o problema da fome, ao ver nos mangues a eterna luta entre o homem e o caranguejo em busca da sobrevivência.

“Não foi na Sorbonne – afirmou – nem em qualquer outra universidade sábia que travei conhecimento com o fenômeno da fome. A fome se revelou espontaneamente aos meus olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis do Recife – Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite. Esta foi a minha Sorbonne. A lama dos mangues do Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo”.

 Na sua obra, Josué inova de maneira fenomenal, mostrando, pela primeira vez e de forma corajosa, que as condições geográficas de uma região influenciam o abastecimento local de alimentos, mas de forma alguma, determinam a carência alimentar da população, esta, para ele, produto da miséria imposta pelo subdesenvolvimento, fruto de relações socioeconômicas arcaicas, duradouras e injustas.

 “A fome – escreveu certa vez – é a expressão biológica dos males sociológicos. Está intimamente ligada com as distorções econômicas, a que dei, antes de ninguém, a designação de subdesenvolvimento”.

 Esse foi o grande mérito de Josué de Castro: provar que o subdesenvolvimento que constrói a fome não é produto exclusivo do espaço geográfico, mas de uma conjunção de fatores históricos, sociais, ambientais e econômicos indissociáveis. Portanto, segundo ele, qualquer esforço para acabar com a fome que não passe necessariamente pela modificação de sua teia estrutural, torna-se paliativo e até demagógico.

 Chamar a atenção do mundo e do Brasil para o problema da fome fez com que colecionasse seguidores em nosso país. Foi nele inspirado que, nos anos 90, Herbert de Souza, o Betinho, criou a Ação da Cidadania, que trouxe de volta a questão da fome como tema da sociedade.
                        
 Da mesma forma surgiu o movimento Manguebeat, liderado por Chico Science, que se apropriou do mimetismo homem-crustáceo e construiu uma nova estética cultural essencialmente urbana.

 Já o Centro Josué de Castro, criado em 1979 em nosso estado e ao qual reverenciamos na figura dos dirigentes aqui presentes, como Teresa Sales e José Arlindo, ajuda a difundir as idéias do cientista e luta por concluir sua biblioteca e um memorial.

 Sob inspiração desse grande humanista, políticas públicas de combate à fome também foram criadas no país, como o Programa Comunidade Solidária, de D. Ruth Cardoso, na gestão do ex-presidente Fernando Henrique, na qual também foram lançados o Bolsa Escola, inspirado pelo senador Cristovam Buarque, o Bolsa Alimentação, o Vale Gás e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil.

 No Governo Lula todas foram reunidas no Bolsa Família.

 O grande desafio que temos agora, assim como deveria desejar Josué, é combater o uso político-eleitoral desses instrumentos, sem o que o esforço será em vão, bem como precisamos criar uma porta de saída para o assistencialismo que é a educação.

 Em todo mundo, ainda vivemos de desigualdades e injustiças sociais com mais de 800 milhões de pessoas passando fome, mas a fome hoje tem um símbolo de luta que se chama Josué de Castro. Na Internet, a mais nova forma de comunicação, digitado o nome de Josué de Castro a palavra fome surge em todas as línguas, o que nos orgulha como brasileiros e pernambucanos. A socióloga Anna Castro, aqui presente, a segunda dos seus três filhos, sabe o quanto as idéias do seu pai são atuais e a saúdo neste momento por aqui ter vindo representar sua família: a mãe Glauce, já falecida, e os irmãos Josué, economista, e Sônia, geógrafa.

 Humanista, responsável, conseqüente, entusiasta da democracia, Josué de Castro abominava os regimes totalitários – “ditadura, nem a do proletariado” afirmou, certa vez – mas acabou, infelizmente, virando vítima de uma ditadura.

Teve seus direitos políticos cassados em 9 de abril de 1964, após o golpe militar, vendo-se obrigado a deixar o Brasil.  Exilou-se na França onde só viu crescer o seu prestígio internacional. Fundou e presidiu o Centro Internacional para o Desenvolvimento, sediado em Paris, e foi também presidente da Associação Médica Internacional para o Estudo e Condições de Vida e Saúde. Foi ainda admitido como professor da Universidade de Paris, entre 1968 e 1973.

 A despeito de tudo isso, em 1973, doente e guardando uma profunda saudade do seu país, do seu estado e de sua cidade, o Recife, Josué faleceu aos 65 anos, em Paris. Não teve condições de passar, como queria, os seus últimos dias de vida na sua pátria. Morreu, na expressão dos seus amigos, em conseqüência do banzo, a doença da tristeza que abatia os africanos nos navios negreiros, obrigados a se mudar para o Brasil e virar escravo na época do descobrimento.

 Portanto, Sr. Presidente, em homenagem a este grande humanista que a Assembléia Legislativa, de forma unânime, resolveu hoje celebrar pela passagem do seu centenário de nascimento, solicito que me permita quebrar o protocolo e que esta minha saudação seja encerrada como deve ser, com um minuto de silêncio que expresse, mais uma vez, o pesar do povo pernambucano pela perda de Josué de Castro e em solidariedade à sua dor de brasileiro exilado.     

 Muito Obrigada.

   
 
© Copyright 2007 - Gabinete da Deputada Estadual Terezinha Nunes
Jornalista responsável Margarette Andrea