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Data: 04 de agosto de 2009
O secretário temporário
A um ano e meio de encerrar o seu mandato, o governador Eduardo Campos surpreendeu pelo inusitado ao decidir recentemente incorporar à sua equipe políticos que, de forma clara, já manifestaram a decisão de concorrer às eleições do ano que vem como candidatos ao Senado, à Câmara Federal e à Assembléia.
Incorporar políticos a uma administração é comum hoje no Brasil. Mas também é comum que isto seja feito no início do mandato do Poder Executivo, dando tempo para que os escolhidos realizem um trabalho consistente e, só depois de quatro anos no cargo, se disponham a enfrentar as urnas, ou para renovar o mandato, ou para tentar o primeiro.
Agora, nomear políticos que só vão ficar oito meses nos cargos é algo incompatível com a boa política e, diria mesmo, que é uma atitude pouco republicana. Um Governo de Compadrio, como está se transformando a atual administração, é algo que Pernambuco nunca tinha visto. Nenhum governador anterior, nem Miguel Arraes, nem Roberto Magalhães, nem Jarbas Vasconcelos, nem Joaquim Francisco ou Marco Maciel, instrumentalizaram a máquina visando às eleições futuras e, o que é pior, em cima do pleito. Isso só contribui para aumentar a descrença da população, cada vez mais levada a por em cheque o interesse dos governantes em resolver seus relevantes problemas.
O certo é que o atual governador, que vociferou em pronunciamentos e entrevistas no início de sua gestão que iria dar exemplos ao país, fez o contrário. Com as nomeações recentes criou uma nova nomenclatura na administração pública brasileira: o Secretário Temporário.
Assim como existem os funcionários temporários que ingressam na administração para responder, interinamente, por vagas que deverão futuramente ser preenchidas por concursados, os secretários temporários, entre eles, os ex-prefeitos João Paulo, Luciana Santos, Odacyr Amorim e Severino de Souza, o Ninho, mal terão tempo de esquentar a cadeira e já deixarão os cargos em abril para tentar melhor sorte nas urnas. Cito somente esses porque a ex-prefeita Cleuza Pereira já disse que não vai se candidatar.
A atitude do governador que, como dissemos, é pioneira nacionalmente, ganhou destaque negativo em um dos principais jornais brasileiros que, comumente, destaca iniciativas positivas dos administradores públicos, sobretudo em se tratando de gestão.
Falo do jornal O Estado de São Paulo que publicou texto onde destaca que o governador, ao fazer as recentes mudanças na equipe, teve como único propósito acomodar aliados para o seu projeto de reeleição.
Trocando em miúdos, o governador está usando a máquina pública em proveito próprio e antecipando a campanha eleitoral que, como ele mesmo tem dito, só deflagrará no início do próximo ano. O Estadão destaca como “arranjo”, entre aspas, a inesperada reforma no secretariado pernambucano e destaca um a um os secretários escolhidos e os cargos que vão disputar no ano que vem.
Fica tão clara a relação custo x benefício que o ex-prefeito João Paulo e atual Secretário de Articulação Regional, ao falar à imprensa sobre as obras a serem feitas, chegou a afirmar que “é inegável que todas elas nos beneficiam, tem fundo político, mas isso é conseqüência do momento”.
Segundo ainda o jornal, o governador negou essa conotação político eleitoral das indicações, explicando que a saída dos secretários em abril não vai gerar descontinuidade administrativa, destacando: “na nossa gestão não há política de secretários e sim política de Governo”. E se referiu aos novos auxiliares como “companheiros pela construção da democracia nos espaços políticos que possam favorecer políticas públicas que ajudem o povo a construir cidadania”.
Difícil de entender. Não só porque a declaração não é clara, mas porque os novos nomeados começaram, no dia seguinte, a cair em campo, e não para fazer obras, mas para fazer política. O ex-prefeito João Paulo, candidato ao senado no ano que vem, já marcou viagens e encontros que a imprensa tem destacado como propositais para fazer seu nome circular pelo estado em busca de votos.
João Paulo, especificamente, ganhou de presente não só a Secretaria de Articulação, mas também três projetos importantes recheados de recursos que antes estavam atrelados à Secretaria de Planejamento: o Prometrópole, o Prorural e o Promata.
E perguntamos: que razões existem para que, de repente, se mude de pasta programas de tamanha envergadura? Não estamos aqui condenando mudanças de equipe, coisa comum, sobretudo quando a equipe escolhida não está respondendo bem ao que foi estabelecido ou prometido em época eleitoral.
O que ninguém está entendendo é por que o governador não nomeou os novos auxiliares no início deste ano, quando dava tempo – já que estávamos há mais de um ano da desincompatibilização – para que os mesmos trabalhassem ou lançassem projetos novos. Um deles, por exemplo, a ex-prefeita Luciana Santos, de tão surpreendida, e ainda sob o impacto da reação indignada do ex-secretário Aristides Monteiro, a quem substituiu, se negou a falar com a imprensa, logo depois da posse, alegando que ainda precisava se inteirar sobre os projetos em andamento.
Não dá para aceitar que secretários que já são temporários ainda assumam precisando de tempo para se informar. Quando terminarem a transição já será o momento de saírem dos postos para tentar as eleições. Perguntamos: como fica a administração diante de improvisações deste tipo?
Imaginamos que o Governo está pouco preocupado com isso, já que seu propósito foi puramente eleitoral, mas e a administração? E os projetos que precisam andar para que as necessidades da população sejam atendidas?
A busca de mandatos, na verdade, está tão patente no atual governo por parte dos secretários que já se anuncia que 12 deles estarão saindo em abril para assumir a função de candidatos. Será uma mudança jamais vista em Pernambuco. Praticamente metade da equipe sairá deixando um vácuo na administração.
A própria bancada do PSB chegou a ser exposta na imprensa com informações “em off” de assessores palacianos argumentando que o governador estaria disposto a colocar auxiliares amigos na função de deputado porque o trabalho da sua bancada não vinha correspondendo ao esperado.
Lamento pelos colegas deputados até porque conheço o empenho dos mesmos, mas não podia dar em coisa diferente um Governo que só se preocupa com eleição e não esconde de ninguém que vive com a cabeça no pleito seguinte, não importando como está a população nem como andam os programas e projetos.
Deve ser por isso que a atual administração vem sendo chamada de Governo Virtual, que só existe para inglês ver. Não há uma obra de grande dimensão em construção nem no Grande Recife e nem no Interior. As estradas, cheias de buracos, provocam acidentes desde a Região Metropolitana ao Sertão. Os serviços básicos são negligenciados, a população pena nas emergências dos hospitais onde falta de tudo, desde pessoal a medicamentos, e a educação, mostrada como vitrine, acaba de sair de uma greve em que foram expostas as vísceras de um Governo onde sua própria base denuncia, como foi o caso, um provável esquema de superfaturamento na aquisição dos computadores fornecidos aos professores.
Ou seja, Pernambuco, que Eduardo havia prometido destacar positivamente, está sendo apontado nacionalmente como exemplo de má gestão, uma gestão que, ao invés de se preocupar com a eficiência e em atender aos interesses diretos do povo, tem como calendário e como preocupação a simples luta pelo voto e nada mais. |