Terezinha Nunes - Deputada Estadual
   
 
 
 

Data: 04 de fevereiro de 2010
Discurso de entrega do título de cidadã pernambucana a Léa Lucas

O título de cidadão, uma das mais significativas homenagens concedidas por esta casa, tem destacado, ao longo do tempo, personalidades que, nas mais diversas áreas e das mais diversas maneiras, construíram uma forma própria de viver em nosso estado e contribuíram ou contribuem para que Pernambuco seja cada vez maior e melhor.

Já experimentaram a emoção do reconhecimento pernambucano homens e mulheres que se destacaram nas inúmeras áreas do conhecimento. Cada um, ao seu modo, encontrou razões em sua própria área de atuação para aqui permanecer e fixar residência, mas todos, absolutamente todos, apontaram a cultura pernambucana, a mais diversificada e rica do país, como responsável pelo deslumbramento inicial que se transformou em admiração, respeito e amor pela nova terra e pela sua gente.

Não resta dúvida de que vivemos, neste período carnavalesco, o momento especial e único da cultura pernambucana, quando ela, literalmente, ocupa as ruas das nossas cidades com suas cores, seus ritmos e uma alegria contagiante e entusiasmada.

Seria, portanto, esta a época mais propícia para, em nome da nossa cultura, entregar títulos de cidadão. Mas o calendário carnavalesco, intenso em eventos e programações, não nos permitiria tamanha ousadia.

Com nossa homenageada de hoje, porém, tivemos que abrir uma exceção. Léa Lucas tem sua história pernambucana confundida com o Carnaval, ao qual deu sua contribuição própria, como grande desfilante dos nossos bailes carnavalescos e integrante do Bloco das Ilusões. Teria que receber este título, portanto, na época do Carnaval, por mais que isso representasse em termos de esforço dos amigos e admiradores que aqui vieram abraçá-la na noite de hoje e aos quais agradeço pela compreensão e presença.

Dona de uma personalidade marcante e de uma alegria contagiante, Léa traduz como poucos o entusiasmo e a vibração da mais importante festa popular pernambucana. Parece, inclusive, que ela vive um eterno Carnaval. Está sempre sorrindo, satisfeita, falando de projetos, cantando e dançando.

Não deve ter sido à toa que o destino trouxe essa carioca a Pernambuco. Uma relação que começou à distância, quando Léa morava com os pais no Rio de Janeiro e conheceu o pernambucano Nuno da Silva Lucas, seu grande amor. Com ele casou e teve dois filhos, Rui da Silva Lucas e Fátima Lucas Bacelar, seus maiores tesouros, como costuma dizer a própria Léa.

Mas foi em 1955 que a sua relação com Pernambuco se estreitou ainda mais. Transferido para a gerência regional da Varig no Recife, Nuno voltou ao Estado, trazendo a família. Foi paixão à primeira vista. Léa se identificou e se encantou rapidamente com a nova cultura.

Exíguo dançarino, seu marido logo a apresentou às festas e bailes de sua terra natal, as quais freqüentavam assiduamente. Conta sua filha que o casal fazia sucesso nos bailes dos clubes Português e Internacional. Chamava tanta atenção que era comum lhes abrirem uma roda no salão para vê-los dançar.

Treze anos depois de chegar ao Recife, Léa ficou viúva, mas, mesmo no meio de muita dor e tristeza, ela se sentiu acolhida na cidade que adotou de coração e alma e aqui permaneceu com os dois filhos, que se formaram em medicina e administração de empresas, graças ao espírito batalhador da mãe.

E é aqui que ela vê a família crescer, com a chegada dos netos Bruno e Tiago Bacelar, do bisneto, Tércio, e de sua mais nova bisneta, Maria Luiza, que nasceu no último domingo, às vésperas do aniversário de Léa, no dia 1º de fevereiro.

Com os filhos já estruturados e bem encaminhados nas suas carreiras, ela decidiu explorar seus dons artísticos, como tanto desejava desde a infância. Um sonho tolhido pela educação severa que teve dos pais, o comerciante de tecidos Antônio da Silva Coelho, e a dona de casa Dejanira da Silva Coelho, que seguiam os valores da época, quando ser artista era algo mal visto.

Mas quem a conhece sabe que contê-la é uma tarefa difícil. Uma prova de sua impulsividade foi o episódio em que, encantada pelos famosos concursos de calouros da Rádio Nacional – o grande ícone da Era de Ouro da nossa MPB – ao invés de ir à escola se escondeu em uma farmácia e, quando não havia ninguém olhando, fugiu para cantar na rádio.

Esta peripécia lhe rendeu o primeiro lugar no concurso e um castigo dos pais. A mãe ouvira a sua voz pelo rádio e a partir de então passou a levá-la e buscá-la na escola todos os dias, com receio de que a filha seguisse seus dons artísticos e se tornasse uma estrela, a exemplo de Marlene, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Aracy de Almeida, entre tantas cantoras que ouvia através do rádio naquela época.

A impetuosidade de Léa me foi resumida esta semana por um admirador seu. Ele disse “Léa lembra o filme O Diabo Veste Prada”. Referia-se à determinada personagem Andy Sacks do filme americano, interpretada pela atriz Anne Hathaway, que, chegada a Nova Iorque, vindo do interior dos Estados Unidos, vence todos os obstáculos para se tornar uma grande jornalista e se impõe pela competência, mas também pela postura ética que causa admiração a todos que dela se aproximam.

Foi somente aqui em Pernambuco, na “melhor idade”, como diz, que ela conseguiu realizar o sonho de se tornar cantora, tendo gravado três CDs homenageando os grandes compositores e intérpretes que sempre a inspiraram.

Também foi em nosso Estado que Léa pôde brilhar nos eventos carnavalescos, sobretudo nos últimos 15 anos, quando intensificou sua participação em desfiles e concursos, ganhando vários prêmios. Começou no Bal Masqué, onde ficou em primeiro lugar com a fantasia “A Espanhola na Terra do Frevo e do Maracatu”. E brilhou nas primeiras páginas dos jornais pernambucanos.

A partir daí, as premiações se tornaram comuns, não só nos tradicionais bailes carnavalescos pernambucanos, onde Léa se tornou hors-concours, mas também em concursos como o Miss Simpatia Shopping Center Recife, de Musa Shopping Center Recife, Musa da Melhor Idade, Mulher Revelação da TC Fashion e Miss Elegância, além de inúmeros outros de Dança de Salão.

Embora sem concorrer há quatro anos, Léa continua presença marcante e simbólica no “melhor Carnaval do mundo”, como ela faz questão de ressaltar. Representante fiel do nosso frevo-canção e dos blocos tradicionais, desfila como destaque no Galo da Madrugada e no Bloco das Ilusões e é a musa do Bloco Carnavalesco CRI – Clube dos Rapazes Inocentes.

Mas não é apenas nas festas e bailes de carnaval que Léa compartilha toda a sua energia. Há mais de dez anos participa ativamente das solenidades de final de ano do Abrigo Cristo Redentor, levando alegria a todos os idosos que lá residem. Aliás a filantropia sempre esteve presente na sua vida, já tendo, por exemplo, integrado o Grupo Terapia do Riso e trabalhado como voluntária na AACD.

Nessa época em que as pessoas vivem cada vez mais para felicidade de todos, Léa perseguiu seus sonhos e tornou-se um exemplo de vivacidade e de vontade de viver para todos aqueles que já passaram dos 60, 70 e até oitenta anos, como é o seu caso. Enquanto todo mundo se olha no espelho em busca de fórmulas da juventude, Léa, você traz essa juventude dentro de você.

Quem a encontra pelas ruas, nas festas e eventos do Recife, e quem a conhece mais profundamente sabe do que estamos falando. Não há como encontrá-la triste. Está sempre alegre, como se dissesse para todos nós, nos versos de Capiba, “De chapéu de sol aberto pelas ruas eu vou. A multidão me acompanha, eu vou. Eu vou e venho prá onde não sei, só sei que carrego alegria pra dar e vender. Deixe o barco correr”.

Homenageando-a, como fazemos nesta noite, estamos também homenageando a todos os pernambucanos mais idosos que ela tão bem representa. E que são tão poucos lembrados em tudo o que se faz.

Mas não poderíamos, Léa, nesta noite deixar de encerrar nosso pronunciamento lembrando que foi nesta semana, no dia 1º de fevereiro, segunda-feira, que você completou 81 anos. Portanto, peço ao Sr. presidente para, quebrando o protocolo, solicitar a todos os presentes que, de pé, cantemos o Parabéns Pra Você.

   
 
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Jornalista responsável Margarette Andrea