Terezinha Nunes - Deputada Estadual
   
 
 
 

Data: 03 de setembro de 2009
Dom Fernando Saburido: "Nosso novo Dom da Paz"

Um importante pensador pernambucano disse certa vez, discorrendo sobre a natureza da política em nosso estado – de um modo geral bastante radicalizada – que possivelmente quando Deus for reunir os homens para proclamar o juízo final, escolherá como local para o anúncio do seu veredicto, o território pernambucano. Mais precisamente a nossa histórica Pracinha do Diário, palco de muitos acontecimentos importantes ao longo do tempo.

Na visão deste pensador, em Pernambuco a conciliação é algo raro. Partimos, quase sempre, para o tudo ou nada, como se o mundo tivesse começado aqui e aqui fosse terminar.

Fiz questão, caro arcebispo Dom Fernando, de iniciar meu pronunciamento desta noite em que a Assembléia Legislativa, a casa do povo pernambucano, se reúne para prestar-lhe esta homenagem de boas-vindas, citando este exemplo. O fiz exatamente para registrar o contraponto entre o perfil histórico de um Pernambuco radicalizado e o significado da vossa presença, pacificadora, conciliadora e, diria mesmo, redentora, neste momento vivido pela nossa Arquidiocese de Olinda e Recife.

Até porque, nas últimas décadas, enquanto muitos políticos continuavam a se digladiar e o radicalismo parecia ter tomado conta também da nossa Igreja, o Espírito Santo - percebemos agora - o preparava, silenciosamente, para, pelo menos no meio dos cristãos, pôr fim a esta dicotomia.

Imagino que desde pequeno, quando brincava com seus nove irmãos no distrito de Jussaral, aqui pertinho, no Cabo de Santo Agostinho, sob os olhares esperançosos dos vossos pais, Pedro e Severina, ambos desejosos de ter um filho padre, a luz da bem-aventurança já se manifestava no vosso íntimo.

Vossa irmã Dulce, por exemplo, costuma lembrar da calma que o envolvia desde tenra idade. Conta ela que nada o fazia pensar em violência, nem mesmo diante da provocação de colegas mais afoitos em sala de aula. Certa feita, afirma Dulce, um primo chegou a segurar um garoto que o agredira, Dom Fernando, na expectativa de que o Sr. o esbofeteasse. No entanto sua resposta foi taxativa: “Não vou bater nele. É pecado”.

É a mesma Dulce que recorda, depois de um certo esforço, uma única travessura do menino Fernando. Foi aos cinco anos, em Vitória de Santo Antão, para onde a família tinha se mudado, e todos, como era costume, se juntaram para acompanhar a procissão do Senhor Morto. Querendo, como criança curiosa, ver de perto a imagem, o menino acabou se afastando dos pais e se perdeu no meio da multidão. Todos ficaram tomados pelo desespero até que um parente o localizou e conduziu para casa.

A partir dos 13 anos, quando deixou Vitória, onde concluiu o curso primário, para cursar o ginasial no Seminário Menor da Imaculada Conceição na Várzea, a candura e a abnegação do jovem Fernando não mudaram. Foi assim também quando morou no centro do Recife, onde cursou o Colégio Estadual Oliveira Lima e dividiu seu tempo entre o trabalho nas Casas José Araújo e a formação religiosa no Centro Vocacional da Arquidiocese, e ao ingressar na Ordem Beneditina. Continuou tranqüilo, como revelam todos que o conheceram nesse período.

Humilde de origem e formação, e vocacionado para o diálogo, nas palavras do padre Edwaldo Gomes, com quem conviveu na época da formação religiosa, Dom Fernando conservou este perfil que aperfeiçoou na função de vigário geral e bispo auxiliar desta arquidiocese e na Diocese de Sobral, de onde saiu deixando imensas saudades, a julgar pelos depoimentos que ouvimos na sua posse como arcebispo.

“Dom Fernando conseguiu navegar no meio dos conflitos” – disse padre Manoel Rocha, de Sobral, referindo-se à postura do nosso arcebispo naquela cidade. “Deus nos enviou Dom Fernando como dádiva do céu para apascentar esta porção do seu rebanho na terra” – afirmou Monsenhor Francisco Araújo. O padre Raimundo Ítalo Arcanjo, também de Sobral, disse que Dom Fernando trabalhou na diocese “com inteligência e sabedoria”. E acrescentou: “O essencial não passou despercebido aos seus olhos”.

Exercendo a paciência, a sabedoria,a inteligência e o perdão em toda a sua vida, Dom Fernando teve seu nome lembrado com entusiasmo por todos aqui na Arquidiocese, quando começaram as especulações sobre quem seria o novo arcebispo.

Por isso foi de grande contentamento o anúncio da sua escolha, gerando um ambiente de euforia que se seguiu ao dia da posse quando, como há muito não se via na Igreja de Olinda e Recife, foi aclamado pelo povo em praça pública no Recife Antigo.

Naquela ocasião, Dom Fernando, tentando abrir espaço no meio da multidão para chegar ao Marco Zero, lembrei-me de um momento que vivi ainda criança, na cidade de Patos, na Paraíba, onde estudava, e houve uma grande festa popular para receber o novo bispo. Com uma diferença. Os bispos eram para nós quase intocáveis e para chegar perto dele tivemos que entrar numa grande fila para apenas beijar seu anel.

Na festa do Recife antigo foi diferente. O bispo ia no meio de todos, era abraçado, exaltado, como Jesus na época em que andava com os apóstolos.

Percebemos naquela ocasião que a esperança despertada no meio de nós, de que finalmente iria conseguir conciliar a todos, juntar os que andavam separados, celebrar a comunhão no seio da Igreja, não aconteceu à-toa.

Afinal, durante anos, da mesma forma que, desde pequeno, já se mostrava paciente, virtude que aprimorou ao se tornar beneditino, Dom Fernando foi, sem querer, sendo colocado no meio dos seus dois importantes antecessores, Dom Hélder e Dom José, quando, nem de longe, se imaginava que o insondável Vaticano poderia vir a cogitá-lo para conduzir a Igreja por aqui.

Foi, por exemplo, ordenado padre por Dom Hélder, em 17 de dezembro de 1983. Em 20 de agosto de 2000 foi sagrado bispo por Dom José de quem se tornou bispo auxiliar.

Era natural, portanto, que Dom Fernando despertasse entre os católicos seguidores dos seus dois antecessores expectativas que foram plenamente atendidas quando ele declarou em uma de suas entrevistas: “Há muita coisa de Dom Hélder que morreu e precisa ressuscitar e também vamos continuar as boas ações deixadas por Dom José”.

Aos padres, que reuniu para pedir opiniões até mesmo sobre as pessoas que deveriam conduzir a Cúria, o que é uma inovação, não deixou dúvidas quanto à sua determinação: “A unidade deve ser construída a partir de agora” – pontuou.

Dom Fernando, porém, terá seu estilo e já demonstrou isso desde os primeiros momentos. Aos participantes da Jornada Teológica Dom Hélder Câmara afirmou: “É importante que haja pensamentos diferentes para que haja segurança no que se faz. Vamos aceitar, portanto, pontos de vista diferentes para que possamos construir um projeto que atenda às aspirações de todos”.

Nos encontros com as pastorais e movimentos compostos, sobretudo, por leigos, ele tem exortado a todos a serem “discípulos e missionários indo ao encontro dos fiéis que se encontram afastados”, lembra Gilberto Gomes, da Obra de Maria, para quem Dom Fernando “traz consigo a esperança de tempos novos”. “No seu discurso, ele deixou para falar dos leigos no final, ressaltando que os últimos seriam os primeiros” – conclui.

São atos como esses que reforçam e demonstram a linha que o nosso novo arcebispo parece pretender seguir em seu trabalho pastoral no qual abrirá espaço para o diálogo e a participação popular. Como ele mesmo expressou: “O evangelho é libertador; não se entende uma interpretação diferente dele. O evangelho não é para oprimir ninguém. Vou trabalhar nessa linha. Se o evangelho não nos proporcionar esta mudança, estaremos perdidos”.

Não se espere dele, da mesma forma, o acanhamento diante dos grandes temas discutidos hoje em dia. Dom Fernando fala com desenvoltura e sem receio para a imprensa, destacando que no mundo de hoje a comunicação é fundamental e a Igreja, sobretudo o seu maior condutor, não pode ignorar esta realidade.

Nesse sentido não teve receio em anunciar tolerância zero para assuntos como a pedofilia, em condenar o que chamou de teologia da retribuição, ou seja, o uso mercantilista da religião e exprimir o seu chamamento aos jovens afirmando que “eles não são o futuro da Igreja mas o presente”.

Se na história do cristianismo, Deus manifestou-se diversas vezes em meio aos conflitos, como no diálogo entre Cornélio e Pedro, que aproximou judeus e gentios, nós esperamos, Dom Fernando, que vossa missão seja vitoriosa.

Afinal, como está no Coríntios: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. As coisas antigas já passaram e eis que se fizeram novas. Eis que tudo se fez novo”.

Vós sois o novo, Dom Fernando, e esperamos que sejais, para esta nossa Arquidiocese, o nosso novo Dom da Paz.

   
 
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Jornalista responsável Margarette Andrea