Solenidade é marcada por muita emoção
Um encontro de emoção e fé. Assim foi a homenagem prestada à Comunidade Obra de Maria pela Assembleia Legislativa, na noite de ontem, a pedido da deputada Terezinha Nunes, pelos seus 20 anos. O fundador da entidade, Gilberto Gomes, disse que, apesar dos números (a Obra de Maria já está presente em 11 países), esse trabalho de evangelização está só começando. Abaixo, o discurso da deputada Terezinha Nunes HOMENAGEM AOS 20 ANOS DA OBRA DE MARIA Discurso da deputada Terezinha Nunes Em 23.02.2010 “A beleza está nas coisas simples”, ensinava Santo Agostinho. Um dos maiores pensadores católicos, Santo Agostinho contemplou a força da simplicidade de Jesus para romper com o fausto e se entregar inteiramente aos pobres e oprimidos. Não poderia iniciar minhas palavras na noite de hoje, dia em que a Assembléia Legislativa presta sua homenagem à Comunidade Católica “Obra de Maria” pelos 20 anos de vida dedicada à evangelização e à promoção espiritual, sem falar em simplicidade. Presente em 13 estados brasileiros e em mais 10 países, onde mantém missionários, a Obra de Maria possui 1.500 membros, 600 dos quais vivendo em comunidade, mas continua tão simples quanto o desejo dos sete jovens que a fundaram em 1990 e que tiveram como abrigo inicial uma casa simples, semi-abandonada, no bairro de Várzea, inspirados no modelo de vida da Comunidade Canção Nova, cujo lema é “compartilhar tudo que se tem”. Sua força e seu exemplo de evangelização que já chegou a 90 mil pessoas, somente através dos Cenáculos - um verdadeiro porta-a-porta espiritual - fizeram com que a comunidade ganhasse de tal forma o respeito da Igreja Católica que nesse início de ano a festa de comemoração do aniversário da Obra de Maria chegou a juntar dois cardeais e mais de 50 arcebispos e bispos em Recife. - “Este Gilberto é um danado, tem um carisma que surpreende” comentou o arcebispo Dom Fernando Saburido ao tomar conhecimento da quantidade de religiosos dispostos a participar da festa em pleno janeiro, mês em que bispos e padres buscam tirar uns dias de férias para recuperar as energias gastas durante o ano. Na mesma festa de aniversário, o arcebispo de Belém, Dom Alberto Taveira, um dos principais incentivadores do grupo e nomeado pelo papa como responsável pela orientação das novas comunidades em todo o mundo, disse que uma das coisas que levaram a Obra de Maria a ser o que é hoje foi exatamente a simplicidade. - “A festa é deles, mas a maioria não se encontra nesse auditório, enquanto nós aqui os parabenizamos. Estão espalhados por todo o prédio trabalhando anonimamente. Cuidam de tudo, desde a limpeza dos banheiros à organização das palestras. E fazem isso costumeiramente, com o único objetivo de servir” disse ele. De onde vem esta simplicidade? Ninguém tem dúvida em apontar para o exemplo de vida do seu idealizador, Gilberto Gomes Barbosa, pernambucano de Surubim e da co-fundadora Maria Salomé, paraibana de Monteiro que chegou ao Recife ainda bebê. Ambos oriundos de famílias humildes e filhos de carpinteiros tiveram, desde pequenos, uma profunda convicção religiosa. Dona Ester, mãe de Gilberto, conta que foi dele a iniciativa de frequentar a igreja no lugarejo Boca de Dois Rios, onde morava com os pais e 12 irmãos. A família toda trabalhava na serraria que mantinha na própria residência e Gilberto costumava tirar uma folga para rezar, sozinho ou com amigos. Em 1983, o jovenzinho decidiu se mudar para o Recife para continuar os estudos e acabou seduzido por uma rotina de festas e diversão, para desespero de D. Ester que temia a mudança de vida do filho. Mas, dois anos depois, quando saía da casa de um tio, na Várzea, onde morava, para mais uma noite de farra, Gilberto foi convidado por três gauchas para uma vigília na Igreja de São Vicente de Paula e aceitou entrar. Foi seu primeiro contato com a Renovação Carismática Católica e onde traçou definitivamente seu caminho. Foi na Renovação também que encontrou Salomé que, melhor do que ninguém, fala do companheiro, então um jovem franzino e calvo, apesar da pouca idade: “Conhecí Gilberto lavando chão de banheiro, carregando peso, servindo da forma mais simples e com alegria e isso me encantou” – comenta Salomé que não teve dúvida da necessidade de a ele se juntar para criar algo novo. Gilberto tinha apenas 22 anos quando, com apoio de amigos que até hoje ajudam a Obra de Maria, alugou a primeira casa do grupo na Várzea. Salomé conta que era uma casa simples, quase em ruínas, sem portas e, coincidentemente, ainda conservando as cores azul e branca – as cores do manto de Nossa Senhora. Todos viram isso como um sinal de Maria, uma benção para a caminhada que iniciavam. No novo lar, os jovens começaram a formar grupos de oração e, de ônibus, lotação ou de carona, iam aos lugares mais simples levar a palavra de Deus. Gilberto, que até então trabalhava como vendedor de roupas e calçados, abandonou tudo para se dedicar à comunidade. Salomé trabalhava como secretária executiva durante o dia e se juntava ao grupo à noite, vindo, posteriormente, a assumir integralmente a vida comunitária. A caminhada da Obra de Maria não foi fácil no início. Nem mesmo na própria Igreja. Muitos viam com desconfiança e temor o destino daqueles jovens cheios de idealismo, mas sem um manto protetor de uma paróquia ou do arcebispado. Foi aí que surgiram os padrinhos considerados fundamentais. O primeiro foi Dom Evangelista Terra, o conhecido Dom Terra, que fez o primeiro estatuto da comunidade. O segundo foi o padre Geraldo, até hoje pároco da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Várzea, que convidou o grupo a se instalar na Casa Paroquial, preocupado com comentários que já surgiam no bairro a respeito dos jovens, morando sozinhos em uma casa. Daí para a frente foram chegando outros padres, bispos, arcebispos como Dom Alberto que hoje é o maior padrinho e defensor da Obra de Maria e que pessoalmente se encarregou de formar os padres da comunidade que já conta com oito ordenados. Mas apesar das vocações sacerdotais virem se revelando no seio da Obra de Maria – este ano é possível que se ordenem mais oito padres - a força do movimento está, sobretudo, nos leigos, em sua quase totalidade jovens que são consagrados e moram na comunidade, como Laudiceia Gomes que deixou a casa dos pais aos 18 anos para se juntar ao grupo, tendo se casado com um membro da comunidade ou que, mesmo com a consagração, permanecem morando em suas casas como Fabiana, também casada com um companheiro que encontrou na Obra de Maria. Além da simplicidade, outro atributo espiritual está atrelado à história da comunidade e se revela no próprio lema exposto nas camisetas dos jovens que a compõem. “Servir a Jesus com alegria”. “Nunca vi um membro da comunidade de cara feia, emburrado. Estão sempre alegres, demonstrando a felicidade que trazem dentro de si” – comentou Dom Alberto. Este otimismo, porém, não está restrito ao semblante de todos. Quem conhece de perto o grupo admite que só o otimismo de Gilberto e Salomé explica a sobrevivência da Obra de Maria. Houve momentos em que era difícil até conseguir o pão de cada dia, embora ele nunca tenha faltado. Todos lembram que no início da caminhada uma das jovens do grupo, Rosineide, fazia aniversário e não se tinha sequer os ingredientes para fazer um bolo e cantar parabéns. Rezaram e, poucos minutos depois, um vizinho tocou a campainha da casa e entregou um pacote com todos os ingredientes necessários. Fatos com esse, segundo Gilberto e Salomé, se repetiram em momentos diversos, trazendo sempre a confiança em dias melhores. Profecias também marcam a história da Obra de Maria, como a do Frei Fulgêncio, franciscano de Maceió, que sempre visitava os jovens e em meio às dificuldades que enfrentavam disse: “Neste momento, o senhor está me colocando que aqui nasce uma comunidade que vai ser conhecida na Várzea e no Recife”. Frei Fulgêncio teria errado em sua profecia se não voltasse no ano seguinte e ampliasse o alcance da comunidade. “Será também conhecida no Brasil e no mundo”, afirmou ele. E novamente acertou. Três anos depois de fundada, em 1993, a Obra de Maria já alçava vôos mais altos. Começou a ganhar o mundo, organizando, ao lado do padre Valdenito, da Igreja de São Pedro, em Olinda, a primeira peregrinação de católicos aos santuários de Nossa Senhora na Alemanha, Itália e Bósnia. A partir daí o movimento só fez crescer. Hoje, a Agência de Viagens Rainha da Paz Peregrinações, fundada pela comunidade, transporta milhares de fiéis aos lugares santos, todos os anos, e tem ramificações em quase todo o Brasil e em diversos países. Nessa caminhada, a Obra de Maria alia a evangelização dos peregrinos ao trabalho de arregimentação de novos adeptos não só no Brasil como no Exterior, estendendo seu trabalho de evangelização missionária até os países africanos onde mantém casas de atendimento e assistência às pessoas humildes. Em Pernambuco, além dos cenáculos que, a cada dia, trazem mais católicos de volta à Igreja, a Obra de Maria mantém creches e assistência familiar às pessoas pobres dos bairros Jardim Monte Verde, em Jaboatão e Beberibe, em Recife. Mantém ainda o Posto Assistencial Padre Pio para atendimento psicológico e clínico aos jovens assistidos nos projetos e a Casa de Retiro São José. A Obra de Maria se dedica também à recuperação de jovens dependentes de substancias químicas e apóia instituições beneficentes com o mesmo objetivo. Tendo nascido em Recife e projetado de tal forma o nosso estado na comunidade religiosa, a Obra de Maria, na pessoa dos seus fundadores e participantes recebe neste momento o reconhecimento da Assembléia Legislativa através do voto unânime dos seus 49 deputados. Que vocês continuem forte e decidida na sua caminhada em busca do bem e da paz. É o que nós, da Assembleia Legislativa, lhes desejamos. Muito obrigada. |