30-07-2010 Patrimônio cultural negligenciado
Editorial do Jornal do Commercio em 30.07.2010 O roubo do quadro Enterro, de Cândido Portinari, um das obras mais valiosas do acervo do Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, em Olinda, reflete bem a ausência de uma política de proteção, preservação e divulgação do nosso patrimônio cultural. O JC já havia denunciado a fragilidade na guarda do acervo na reportagem Sem seguro ou segurança, da jornalista Fabiana Moraes, publicada em 2 de setembro de 2007. A repórter alertava que a falta de levantamento de patrimônio e de plano de segurança expõem instituições e mostram enorme descuido com o presente e o passado.
O MAC-PE havia sido alvo de investida de bandidos anteriormente, quando levaram um autorretrato de Eliseu Visonti, há 25 anos, obra nunca recuperada. Pode parecer espantoso, devido à fragilidade da segurança, que tanto tempo tenha se passado entre uma ação e outra. E a justificativa pode ser grotesca: a ausência de divulgação. Ou seja, nem mesmo quadrilhas especializadas em furto de obras de arte parecem conhecer o acervo do MAC-PE, que possui obras de Cícero Dias, Eliseu Visconti, Wellington Virgolino, Di Cavalcanti, João Câmara, Guinard, Adolph Gottielib, Burle Max, Francisco Brennand.
Esse desconhecimento é comprovado pelo pequeno número de visitantes registrados diariamente – algo em torno de 20 pessoas em média – um número ridículo para um dos principais museus de arte moderna do século 20 do País. Revela, também, a ausência de programa educativo que leve alunos do ensino fundamental e médio ou mesmo de cursos de artes plásticas ao MAC-PE. Pelo visto o museu também está fora do programa de visitação das operadoras que levam os turistas a Olinda. Com um acervo em parte constituído pelos prêmios de aquisição do Salão dos Novos de Pernambuco – que tanta falta tem feito e que revelou tantos nomes – o MAC-PE não tem sabido tirar proveito do seu patrimônio. É tão comum nos principais museus do mundo o visitante comprar livros, catálogos, cartões postais, camisas, pôsteres, chaveiros e outros suvenires feitos através de licenciamento. Mas parece que aos gestores e ao governo basta o museu estar aberto, realizando mensalmente uma ou outra exposição, sem planejamento ou calendário prévio, quase nenhum investimento em mídia e programa educativo. O anúncio feito pelo governador Eduardo Campos de um investimento de R$ 2 milhões em segurança nos museus geridos pela Fundarpe minimizará os riscos da ação de bandidos, mas não equacionará problemas que se arrastam por décadas nos museus pernambucanos, como a falta de catalogação de todo o seu patrimônio, de investimentos na conservação do próprio imóvel (o MAC-PE já foi alvo de cupins e infiltrações), nas obras de seus acervos e na reserva técnica das instituições. Há ainda carência de pessoal técnico especializado, de programas de reciclagem e de um planejamento a curto, médio e longo prazos de suas atividades. Não é de agora que Pernambuco se orgulha da sua diversidade cultural. O programa da atual gestão é sintomaticamente chamado de Pernambuco Nação Cultural. E uma de suas principais metas é justamente o desenvolvimento de ações “que visam o fomento, a preservação, a formação, a difusão, a distribuição da cultura no Estado, levando em conta sua dimensão simbólica e seu desenvolvimento dentro do conceito de economia da cultura, com foco na inclusão social”. Preservação talvez seja a área mais crítica deste quinteto. A Fundarpe foi criada há quase 40 anos para gerir o patrimônio histórico e artístico de Pernambuco – se preocupando inicialmente com o tombamento e restauro de bens e acervos. Todavia, a instituição se transformou nas duas últimas décadas numa das maiores promotoras de shows e eventos públicos do País, alguns dos quais provocaram um escândalo que ainda está sendo investigado. Nas suas atribuições estão ainda programas de formação e qualificação profissional, e o fomento através de uma política de editais, servindo de indutora da cadeia produtiva cultural em Pernambuco. Tudo isso consome quase todos os recursos da Fundarpe, pouco sobrando para a preservação, proteção e divulgação de um rico patrimônio cultural e seus bens valiosos.
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