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08-02-2010

Revolta no adeus a universitário



Publicado no Jornal do Commercio em 08.02.2010

A perplexidade e a dor marcaram o enterro do universitário Alcides do Nascimento Lins, 22 anos, ontem, no fim da manhã, no Cemitério de Santo Amaro, área central do Recife. Familiares, vizinhos, professores e, principalmente, admiradores do jovem que ganhou fama ao vencer a pobreza e passar em primeiro lugar entre os alunos da rede pública de ensino no vestibular de biomedicina da UFPE, em 2007, compareceram em peso para prestigiá-lo. Alcides Lins foi assassinado friamente com dois tiros à queima roupa, na noite de sexta-feira, em casa, depois de ser confundido com um marginal pelos assassinos, que o mataram apesar dos apelos da família. Foi executado diante da mãe e das três irmãs.

O Cemitério de Santo Amaro ficou lotado para o enterro do jovem. Por todos os cantos se via pessoas lamentando a morte dele, tido como exemplo para a Vila Santa Luzia, comunidade pobre do bairro da Torre, Zona Oeste do Recife, onde nasceu e se criou. A área do velório, onde o corpo estava desde a tarde de sábado, ficou pequena para tanta gente. Estavam presentes desde pessoas humildes, criadas ao lado do jovem, até professores, reitor e pró-reitores da UFPE, onde Alcides Lins cursava o 7º período de biomedicina. Todos juntos, sofrendo pela mesma perda.

A mãe do jovem, a ex-carroceira Maria Luíza do Nascimento, 45 anos, externava de todas as formas a dor de perder um filho. Em nada lembrava a mulher forte que, no dia do crime, ainda se agarrou aos assassinos para tentar proteger Alcides. Ontem, a tristeza dela contaminava a todos. Sem se alimentar desde a morte do filho e ainda vestida com o jaleco branco utilizado por ele no curso de biomedicina, ela desmaiou pelo menos duas vezes. Numa delas, demorou para voltar a si. “Meu Deus, por que o senhor permitiu isso? Tanto que eu fiz por ele, para que fosse alguém na vida, e tudo acaba assim”, dizia, baixinho, agarrada a uma rosa momentos antes de o caixão ser enterrado.

Os vizinhos e amigos de Alcides formaram uma fila para conseguir se aproximar do caixão onde ele estava. Entre os presentes, o reitor da UFPE, Amaro Lins, e a pró-reitora acadêmica da instituição, Ana Cabral, além de diversos professores das mais variadas fases da vida do jovem. “É uma perda irreparável. Alcides representava o sonho de muitos jovens pobres. Quando o assassinaram, não mataram apenas uma pessoa. Mataram milhares de jovens pobres da periferia que buscavam alcançar seus sonhos”, afirmou Amaro Lins, garantindo que a universidade vai ajudar a família do jovem e conceder a mesma bolsa de estudos que ele tinha para a irmã mais velha, Ana Paula, que passou no curso de farmácia na UFPE e fez aniversário ontem, no dia do enterro do irmão.

 



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Jornalista responsável Margarette Andrea