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Subsídios ao transporte público
Artigo publicado no Jornal do Commercio
Data: 09 de setembro de 2003
Pesquisa realizada pelo Governo do Estado, através
da EMTU, em 1997, tendo por base a Região Metropolitana
do Recife, concluiu que 1,1 milhão de pessoas fazem
a pé ou de bicicleta o percurso entre a residência,
o comércio ou o local de trabalho, diariamente. Recentemente
o Ipea chegou a conclusão semelhante, sobretudo considerando
o prazo de cinco anos de um levantamento para o outro: constatou,
por amostragem, ser de 1,6 milhão o número de
ciclistas e pedestres que ganham as ruas dos 14 municípios
metropolitanos todos os dias, o que representa 52% da população
neles residente.
A pesquisa do Ipea não se limitou a estudar o que
ocorre em Pernambuco mas também em outros grandes Estados
do País. E a conclusão foi a mesma. Em Belo
Horizonte, 33,7% da população estão andando
a pé ou de bicicleta. Em São Paulo, 30%, e no
Rio de Janeiro 28,4%. O fato de a RMR ter um percentual muito
maior de pedestres demonstra não só grau de
pobreza de sua população, em comparação
com a das demais capitais citadas, mas também a elevada
importância do mercado informal em nossa economia.
O hábito de andar a pé ou de bicicleta, cada
vez mais recomendado pelos médicos para combater os
efeitos da vida sedentária, é salutar quando
se trata de percorrer pequenas distâncias ou combater
os efeitos da vida sedentária. Infelizmente, porém,
não é este o caso em questão. Na verdade,
em sua grande maioria, essas pessoas estão recorrendo
a meios rudimentares de locomoção nas grandes
capitais brasileiras por um motivo muito simples: não
têm renda suficiente para utilizar o transporte coletivo.
Diante desse quadro, um desafio se impõe à
sociedade brasileira, já que, como se viu, o drama
é nacional. E uma questão se levanta: como vai
ser possível garantir a essas pessoas que se encontram
à margem de um benefício social fundamental,
o direito de acesso ao transporte coletivo?
O vale-transporte, que hoje vigora em todo o País
e foi uma grande conquista dos trabalhadores, é um
subsídio importante mas só favorece os formalmente
empregados. Para os demais usuários só duas
possibilidades se colocam: aumentar o nível de emprego
e, conseqüentemente, a renda das pessoas mais pobres
ou criar um subsídio diferenciado para aqueles que
se encontram desempregados, vivem de pequenos negócio
ou estão agregados ao mercado informal.
Como tanto os Estados quanto os municípios não
têm condições de pensar em benefícios
desse porte, por conta da falta cada vez maior de sustentação
financeira, há que se imaginar em uma saída
via recursos federais ou através dos muitos impostos
já cobrados dos usuários do transporte privado,
o individual. O subsídio poderia vir de forma indireta
via destinação de recursos públicos federais
para o transporte coletivo, hoje quase totalmente sustentado
pelos usuários que pagam suas passagens, de forma a
permitir uma redução substancial das tarifas
e uma maior universalização daquele serviço.
Ou de forma direta, via cartão-eletrônico distribuído
com os já muitos cadastrados nos programas sociais
governamentais.
Propostas e exemplos não faltam. Na Comunidade Européia,
onde o transporte público é prioridade, quase
todos os países garantem subsídios diretos à
operação de ônibus e metrôs. Em
Madri, cerca de 50% do custo do sistema de transportes é
subsidiado. Se tal comportamento é corriqueiro em um
Continente de renda infinitamente superior à brasileira,
aqui, por via das dúvidas, a necessidade de uma mudança
de postura é ainda maior.
Até o final de outubro o transporte público
estará em debate no País com a realização
das Conferências das Cidades a nível municipal,
estadual e federal. Estamos, portanto, em momento apropriado
para trazer este assunto à-tona já que a mobilidade
urbana é um dos principais temas a serem debatidos.
O levantamento do problema apenas não será
suficiente para que pensemos em solução a curto
prazo mas servirá, no mínimo, para conscientizar
a população no sentido de que seja corrigida
uma situação verdadeiramente esdrúxula.
A que garante aos trabalhadores formalmente empregados uma
redução substancial no custo da passagem e deixa
de lado os que mais precisam disso: os de renda mais baixa
e que nem acesso têm ao mercado formal de trabalho. |