Terezinha Nunes - Deputada Estadual
   
 
 
 

Pink: pernambucana, sim senhor

Artigo publicado no Diario de Pernambuco
Data: 03 de abril de 2005

Quem ainda não presenciou - velada ou abertamente - o preconceito estampado no rosto de cariocas e paulistas - sobretudo paulistas - diante do carregado sotaque nordestino e pernambucano? É comum os habitantes do sudeste agirem com desdém, esboçarem um riso crítico ou largarem um sonoro e arrastado "ôxente" ao ouvir um pernambucano se expressar.

Tal comportamento se generalizou mais ainda depois que os brasileiros passaram a conviver com a linguagem televisiva e, naturalmente, sulista. Por terem suas sedes no sudeste as grandes redes de TV recrutam os seus profissionais sobretudo naquela região. Quando um deles é contratado no Nordeste tem que passar por fonoaudiólogos, - Glorinha Beutmuller se notabilizou neste assunto - ou outros especialistas do gênero para se reciclar e falar o "sulistês".

Essa prática também tem levado atores, muitos deles renomados, a improvisar um "caricato" sotaque pernambucano ao interpretar personagens regionais, como aconteceu recentemente com a atriz Suzana Vieira que encarnou a pernambucana Maria do Carmo em Senhora do Destino. Por mais esforço que façam esses atores/atrizes aprofundam e generalizam o preconceito, concentrando-se em um linguajar ainda mais carregado e "arrastado", como costumam dizer, para tentar reproduzir o falar estadual.

Nesse emaranhado de "dialetos " existentes no Brasil - o gaúcho também é vítima do preconceito de linguagem - muitos sucumbem, ou são obrigados a fazê-lo, para passar bem. Mesmo que às custas de um verdadeira violência cultural. É do conhecimento público a história dos peões que na década de 60 - agora é mais raro pois o drama do desemprego passou a ser nacional - migravam para Rio e São Paulo e voltavam "falando carioca".

Discriminados lá, passavam também a sofrer discriminação por aqui, perdendo a identidade cultural e jogando pelos ares o amor próprio, tão valorizado nos arraigados costumes nordestinos .....

Correndo por fora desse determinismo que ninguém mais ousava enfrentar, uma jovem mulher pernambucana aproveitou uma simples fresta que lhe foi aberta para escancarar a porta e, a seu modo, tentar mudar as regras do jogo. De um salão de cabeleireiro no Recife a decidida Tatiane Pink largou no ar, em horário nobre, seu autêntico sotaque pernambucano. Foi ela mesma. Sem eira nem beira, como se diz por aqui, abriu o verbo e fez sucesso.

Se seu falar tão característico não seria aceito pelas regras oficiais, o Reality Show Big Brother foi a senha que ela encontrou para, em outras palavras, dizer ao Brasil: "sou pernambucana sim, senhor".

Autêntica e destemida ganhou a respeitabilidade de todos - nortistas, nordestinos, sulistas - e transmitiu aos seus conterrâneos que há salvação, mesmo que além dos padrões televisivos tradicionais.

Pink não venceu o Big Brother, o que, certamente, a conduziria a uma melhor condição de vida mas, certamente, sua imagem vai estar muito tempo ainda na cabeça dos pernambucanos. Contrariando o artista plástico americano Andy Warhol, para quem no mundo globalizado a tendência é as pessoas não terem mais do que quinze minutos de fama, seu sucesso vai ser mais longo. Não será apenas mais uma ex-participante de um programa que cria celebridades instantâneas.

Nas ruas do Recife, ao voltar do Rio, sentiu isso quando as pessoas a cumprimentavam e agradeciam pelo orgulho que demonstrou ter de sua terra.

A forma como espontaneamente se expressou calou fundo no coração pernambucano e revigorou ainda mais nossa auto-estima. Quem a viu e ouviu, com certeza estará muito mais forte daqui para a frente para expressar-se lá fora - na frente ou atrás das câmeras - com a mesma alegria estampada no rosto daquela que nos fez, sem dúvida, muito mais felizes de viver nesse estado. Pink não falou "carioca" e nem "paulista". Falou "pernambucano" e todo mundo aplaudiu. A prova foram os milhões de votos que recebeu todas as vezes em que enfrentou o paredão.

   
 
© Copyright 2007 - Gabinete da Deputada Estadual Terezinha Nunes
Jornalista responsável Margarette Andrea