Terezinha Nunes - Deputada Estadual
   
 
 
 

O rei está nu

Artigo publicado no Diario de Pernambuco
Data: 29 de julho de 2007

É muito conhecida a lenda, criada pelo escritor dinarmarquês Hans Christian Andersen, sobre um rei que cultuava ao extremo o desejo de se vestir bem, chegando ao ponto de só aparecer em público com roupas novas, cada vez mais ricas e deslumbrantes. No seu delírio perfeccionista, foi surpreendido certo dia por dois trapaceiros dispostos a confeccionar para o mesmo a mais linda e custosa vestimenta de que se tinha notícia, usando um tecido mágico.

O rei caiu na armadilha, tratou de liberar os recursos necessários para o trabalho, e sonhou dias e noites com a novidade. Durante esse período, mandava que seus assessores acompanhassem a confecção. Eles nada viam sendo feito mas os trapaceiros os convenciam de que tão explendorosa peça só poderia ser vista por pessoas inteligentes. Com receio de serem chamados de burros, eles voltavam ao Palácio falando maravilhas da nova roupa.

No dia fatídico da apresentação das vestes que o rei usaria em desfile previamente agendado e com a multidão se espremendo para ver o soberano do melhor ângulo, os trapaceiros convenceram o rei, da mesma forma que fizeram com os assessores, que a roupa era invisível aos pobres mortais. O rei, que se considerava inteligente e não queria ser chamado de ignorante, começou a desfilar. O povo, da mesma forma cego pela bajulação e pela apologia real, aplaudia o rei e aclamava a nova “vestimenta”. Até que uma criança, do alto de sua inocência, pontuou em alto som: “o rei está nu”. Todos então notaram o engano e passaram a gritar: “o rei está nu, o rei está nu...”. O soberano, envergonhado, correu para o Palácio de onde nunca mais saiu.

A lenda cai bem na história das vaias ao presidente Lula na abertura dos jogos pan-americanos. Acostumado a só comparecer a solenidades oficiais organizadas pelo PT ou pelos partidos aliados, nas quais a quase totalidade das pessoas são transportadas por ônibus (isto já aconteceu diversas vezes em Pernambuco ), o presidente se acostumou com os aplausos. Como o rei da lenda, acreditou na unanimidade e na possibilidade de andar por onde quisesse para ser aplaudido “como nunca acontecera na história desse país” – jargão que passou a usar para demonstrar onipotência.

Até que no Maracanã encontrou a realidade. A platéia, que não estava ali levada por ninguém, mas pagando ingresso, e caro, resolveu botar pra fora sua insatisfação e vaiou seis vezes o presidente, a ponto de não lhe permitir a obediência ao protocolo que dizia caber a ele a declaração de abertura dos jogos. Como o rei que voltou correndo ao Palácio, quando se percebeu nú, Lula teve que engolir, envergonhado, a decisão dos organizadores de dar a Carlos Artur Nuzman o direito de fazer a abertura do panamericano. Um vexame internacional.

Os amigos (assessores) do presidente, ao invés de encararem o episódio como uma lição, afinal Lula não é, como acreditava que era, uma uninimidade, passaram a ver chifre em cabeça de cavalo e até a conferir um poder incomensurável ao prefeito do Rio, César Maia, acusando-o de organizar a vaia. Se César Maia tivesse tanto poder, certamente seria hoje o presidente.

A chama da lucidez veio mesmo dos pesquisadores de opinião pública. Eles alegaram que a multidão, em sua maioria constituída de pessoas de classes A e B, não está tão satisfeita com o presidente e seu Governo. As pesquisas mostram uma popularidade alta do presidente entre os mais pobres e não nesse tipo de público. E este público tornou claro seu cansaço com coisas mais corriqueiras do que as orquestrações enxergadas pelos lulistas, como a derrocada na área de segurança pública, a crise nos aeroportos, o desemprego, o mensalão e a corrupção em geral.

Se o presidente tem conseguido convencer os mais pobres de que isso nada tem a ver com ele, a classe média não está acreditando nisso e começa, pelo visto, a colar a figura do presidente a seu governo, que é ruim. Até que ponto isso vai se agudizar daqui pra frente é difícil prever. Mas não é impossível que este tenha sido um estouro da boiada. Afinal, o presidente está no segundo mandato e só agora, como se tivesse sido empossado em janeiro, fala em plano de desenvolvimento e em obras há muito reclamadas pela população.

Lula foi visto no Maracanã como um simples mortal, de carne e osso, sem a pompa e circunstância dos corredores brasilienses e sem multidão ensaiada para aplaudí-lo. Talvez vá precisar ser confinado a ambientes fechados ou platéias organizadas, se desejar continuar no Olimpo. Longe do povo, como o rei que voltou ao Palácio para nunca mais sair.

   
 
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Jornalista responsável Margarette Andrea