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Palmas para o piloto
Artigo publicado na Folha de Pernambuco
Data: 22 de agosto de 2007
Em meio ao inferno astral vivido pelo setor aéreo brasileiro, com aeroportos lotados, pessoas revoltadas e um estresse que parece não ter fim, causou alento o depoimento de um pai, com o filho no colo, que desembarcava no aeroporto de Congonhas dia desses, após uma viagem tranqüila. Um repórter de TV o indagou sobre o pouso do avião - motivo de grande medo hoje em todo o País após o acidente com o Air-bus da TAM - e ele respondeu: "foi ótimo, até aplaudimos o piloto".
Não faz muito tempo, talvez vinte anos, que os aeroportos brasileiros eram lugares prazerosos e os vôos mais ainda. Comumente, nessa época, os pilotos faziam questão de lutar pelo conforto e tranqüilidade dos passageiros e caprichavam na hora de colocar o avião no chão. Era comum, nessas ocasiões, após um pouso tranqüilo em que o avião mais parecia deslizar sobre a pista, os passageiros aplaudirem de forma entusiasmada a tripulação e repetir contínuos parabéns ao deixar a aeronave.
Com o passar do tempo, a lotação cada vez maior das aeronaves, a crise dos controladores, a ganância das companhias aéreas, a falta de investimentos e a incompetência generalizada na gestão do setor aéreo, os passageiros passaram a ser encarados como um número a mais e os pilotos obrigados a operar no limite da segurança e, conseqüentemente, do estresse. Os aplausos viraram coisa do passado e os pousos, em sua maioria, um sem fim de solavancos e trepidações de tirar a paciência.
Mesmo que a crise demore a passar e ainda tenhamos que penar muito para ter paz nos aeroportos, não custa nada voltarmos ao hábito saudável de aplaudir os pilotos após um pouso tranqüilo. Só agora sabemos como eles vivem, junto com o restante da tripulação, o estresse do setor aéreo. Se, ainda por cima, não recebem o reconhecimento dos passageiros, a situação fica mais difícil de ser encarada.
Desta forma reconheceremos a postura de verdadeiros heróis vividas por eles, decolando várias vezes ao dia para nos fazer chegar ao destino pretendido. Os pilotos estão apenas na ponta de um dos setores que estão em crise no Brasil. Da mesma forma que os médicos das emergências hospitalares que recebem a carga diária do excesso de doentes para serem atendidos em hospitais cada vez mais carentes de condições.
Não há como negar certos exageros numa greve de médicos, como a que aconteceu recentemente em nosso estado, mas também não se pode deixar de reconhecer que eles também operam no limite, como demonstrou em artigo durante a greve o jovem médico Tiago Acioli, 28 anos, da emergência do Hospital da Restauração.
Diz Tiago, entre outras coisas ao anunciar seu pedido de demissão " amo o que faço, não sei fazer outra coisa, mas quase morro de espanto quando, hoje, percebo que trabalho numa franquia do inferno" e conclui " não tenho vergonha de dizer que ando sofrendo de depressão, como vários colegas que também sofrem em segredo".
Como os pilotos, os bons médicos das emergências, antes de serem criticados pela indignação que manifestam, devem ser aplaudidos e reconhecidos para que suportem melhor os descasos de um país imenso, de problemas enormes e de pouco caso para com a população.
Ou se consegue que pilotos, médicos, professores e policiais - só para citar os que estão na ponta dos setores mais críticos - sejam, ao invés de criticados, respeitados, reconhecidos e aplaudidos, ou vamos demorar o dobro e talvez o triplo de anos que são necessários para que, enfim, o Brasil entre nos eixos e se possa voltar a ter o prazer de entrar num avião com alegria e orgulho de ter nascido e de morar nesse nosso grande país. |