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Aborto e laqueadura tubária
Artigo publicado no Diario de Pernambuco
Data: 20 de maio de 2007
A vinda do papa ao Brasil e as declarações do
ministro da Saúde e do próprio presidente Lula
sobre o direito ao aborto, fizeram voltar à ordem do
dia a polêmica sobre esse assunto, latente na sociedade
brasileira há muito tempo.
Ficou claro, mais uma vez, a grande distância que existe
entre o posicionamento das religiões, que consideram
o aborto a interrupção de uma vida humana em
desenvolvimento, e os segmentos não religiosos que
defendem o direito das mulheres pobres a interromper a gravidez
em hospitais públicos – já que as de classe
média e alta podem fazê-lo em instituições
particulares.
Será que alguém já perguntou às
mulheres pobres o que elas realmente desejam? Penso que, mais
importante do que o direito ao aborto, que é polêmico
e dificilmente provocará um consenso, seria oportuno
discutir um desejo bem mais claro das mulheres carentes :
o de limitar o tamanho das famílias através
da laqueadura tubária.
Quem anda no meio dessas mulheres ouve-as defender a esse
método sem censura. Católicas, evangélicas,
espíritas, todas desejam ter uma chance de, após
o segundo filho, fugir ao risco de uma nova gravidez. É
fácil entender porque essas mulheres preferem a laqueadura
ao aborto. O aborto, em um país de tradição
católica como o Brasil, é um tabu e quem o pratica,
com raras exceções, carrega a culpa de ter decidido
pôr fim a uma vida.
A laqueadura, ao contrário, não parece provocar
culpa e, pelo menos até agora, não conta com
movimentos contestatórios de relevância. Há
muito cresce no Brasil o uso desse sistema. As mulheres de
classe média e alta nem pensam duas vezes antes de
tomar a decisão. As pobres ficam à espera de
algum médico que se sensibilize com seu drama. Além
do mais – e eis aí o cerne da questão
– o SUS faz a laqueadura mas só quando a mulher
tem mais de 25 anos, dois filhos e não está
grávida, para que se evite a cesárea.
Acontece que as mulheres pobres, ao contrário das
de classe média e alta, estão tendo filhos cada
vez mais cedo. Muitas têm o primeiro aos 15, 16 anos
e quando chegam aos vinte já estão com até
quatro filhos. Como esparar mais cinco anos pelo SUS e ainda
enfrentar uma fila? Está certo que é preciso
ter precaução para laqueadura em mulheres muito
jovens mas não se pode simplesmente cassar o direito
que as mesmas têm de limitar o tamanho da família.
O resultado de tudo isso é desastroso. Recente pesquisa
do IBGE/PNAD concluiu que o município brasileiro onde
as famílias têm maior número de filhos
é o nordestino Santo Amaro, no Maranhão, com
5,3 filhos por residência, e o município onde
o número de filhos é menor é Santos,
em São Paulo, com 2,29, por família. As famílias
carentes, as que menos têm condições de
alimentar os filhos e oferecer-lhes melhores oportunidades
nas áreas de educação e saúde
, como é o caso das nordestinas, têm um número
de filhos em quantidade duas a tres vezes maior que famílias
mais ricas.
Existem inúmeros métodos anticonceptivos mas,
pelas reações que provocam - caso das pílulas
ou de outros métodos que usam hormônios - ou
pela falta de sensibilização dos companheiros
- o caso da camisinha - nem sempre contentam as mulheres.
Já o DIU ganhou a fama – talvez injusta –
de ser abortivo.
Há que se considerar, é verdade, em toda essa
discussão, que a laqueadura tubária é
um método definitivo, o mesmo acontecendo com a vasectomia
masculina, mas já há muitos casos de mulheres
e homens que conseguiram revertê-las quando decidiram
voltar a ter filhos. O básico da laqueadura, porém,
é que não envolve a questão moral e religiosa
da interrupção de uma vida.
Portanto, enquanto o aborto for tabu, as mulheres pobres,
sobretudo as mais jovens, vão se contentar, não
parece haver dúvida, com pelo menos um direito que
lhes está sendo negado : o de fazer ligadura. E, para
garantir isso, o presidente Lula não precisa ir longe
e nem se envolver em polêmicas religiosas. É
só usar a caneta.
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