|
Maioridade - plebiscito já
Artigo publicado no Diario de Pernambuco
Data: 19 de abril de 2007
As mais recentes pesquisas realizadas em Pernambuco e no Brasil
demonstram que a redução da maioridade penal
é hoje defendida pela esmagadora maioria da população.
Em Pernambuco, levantamento recente do Ipespe demonstrou que
90% dos entrevistados apoiam a medida. No Brasil, a pesquisa
CNT/Census concluiu que a redução tem o apoio
de 81,5% dos brasileiros.
Embora o assunto tenha sido posto na ordem do dia mais recentemente,
com o assassinato do menino João Hélio, no Rio,
a redução da maioridade ganha cada vez mais
adeptos desde que menores passaram a ser protagonistas de
casos leves e graves de violência, aliciados por bandidos
de mais de 18 anos que os usam como massa de manobra.
No mês de março, ao realizar audiência
pública sobre o assunto, a Comissão de Cidadania
da Assembléia Legislativa chegou a discutir a possibilidade
de se defender a realização de um plebiscito
nacional para resolver a questão. A simples alusão
ao fato, porém, gerou imediata reação
dos órgãos da sociedade civil que cuidam diretamente
do atendimento aos menores sob situação de risco
presentes na audiência, embora a favor tenham se levantado
vozes respeitáveis como a do presidente do TRF da 5ª
Região, desembargador Francisco Cavalcanti.
Quase todos os países do mundo hoje já reduziram
a maioridade penal. Mapa recente do Unicef, disponibilizado
na internet, demonstra que em todos os continentes a grande
maioria dos países ricos e pobres não mais adota
a maioridade aos 18 anos.
Desde nações desenvolvidas - Alemanha (14 anos),
França (13), Inglaterra (10), Estados Unidos (de 10
a 18 anos dependendo do estado) - a nações em
desenvolvimento - México (11), China (14), India (7),
Nepal (10), Nigéria (7) Etiópía (9),
Argentina (16), Chile (16) - reduziram a maioridade, argumentando
que os jovens de hoje, por conta dos meios de comunicação,
estão muito mais maduros do que há 30 anos,
por exemplo. Se assim acontece, afirmam, sabem discernir mais
cedo o que é certo e errado.
Ao se posicionarem contrárias ao plebiscito, as ONGs
que cuidam de menoresdelinqüentes argumentam que, mais
eficiente do que reduzir a maioridade, é oferecer políticas
públicas decentes para esses jovens. Os que se colocam
a favor explicam que todos têm conhecimento de que só
a educação de qualidade e o emprego resolverão
o problema da violência mas que tais políticas
são de longo prazo e é necessário um
posicionamento de mais curto prazo.
O plebiscito talvez seja a melhor forma de contentar a uns
e outros. Em primeiro lugar, a simples existência de
uma grande maioria favorável à redução
da maioridade no país não significa que o plesbiscito
vá dar um resultado contrário ao que defendem
as ONGs. O plebiscito sobre o desarmamento é uma prova
disso. Nem os atores globais conseguiram que a população
- antes favorável - votasse contra a medida, convencida
pelo debate na televisão.
O mesmo pode acontecer com a maioridade. E com uma vantagem.
Só tomando conhecimento do que acontece hoje no país
com as políticas públicas destinadas aos menores
em situação de risco, através de um amplo
debate, a população poderá vir a cobrar
mais eficiência dos governantes. Não sendo assim
vamos cair mais uma vez no "deixa tudo como está
para ver como é que fica " - como diz a sabedoria
popular. Optaremos pela inércia, péssima conselheira.
Se o plebiscito apontar para a redução da maioridade,
estaremos acompanhando a tendência mundial, sobretudo
em relação aos crimes hediondos. O mais importante,
porém, é que, numa situação ou
noutra, sairemos dele mais conscientes de que é preciso
cuidar mais dessas crianças e jovens que hoje formam
um grande exército de seres humanos entregues à
própria sorte.
|