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Cadê o parque
Artigo publicado pelo arquiteto Paulo Roberto de Barros Silva
no Jornal do Commercio e destacado por Terezinha Nunes na
Assembléia.
Data: 18 março de 2007
A Prefeitura do Recife apresentou o projeto do denominado
Parque Dona Lindu, em Boa Viagem. Projeto de Oscar Niemeyer,
terreno doado pelo presidente da República, reivindicação
do povo da Zona Sul. Uma grata surpresa e um curioso desvio
de rota. A surpresa reside no programa do que seria parque
e na beleza do produto apresentado – o traço
do gênio no chão no Recife. Entretanto, o que
era para ser verde, espaço de convivência e contemplação
homem/natureza foi trocado por um equipamento público
destinado à realização de shows para
20 mil pessoas numa esplanada de concreto rodeada por uma
edificação semicircular que abrigará
lojas, restaurante, exposições e um teatro.
Aí está o desvio de rota, posto que o parque
de 33 mil metros quadrados foi reduzido a quatro canteiros
de jardins.
Desvio não do arquiteto, que certamente cumpriu sua
tarefa. Na verdade arquiteto não define programa, quando
muito contribui para o seu aperfeiçoamento. Assim,
a rota foi mudada por quem lhe fez a encomenda. O desvio de
rota leva a duas reflexões: a primeira pertinente à
reversão de expectativa da população
que vestiu-se de verde, foi às ruas, plantou coqueiros
e coletou milhares de assinaturas para assegurar a manutenção
do pequeno vazio urbano na sua feição natural.
E agora, como fica o sonho do parque transformado em atração
de fluxos – de veículos, do comércio formal
e informal, do ruído sonoro, dos eventos e multidões?
Uma contradição e uma dissintonia entre o objeto
de luta popular e o projeto da prefeitura. A segunda reflexão
diz respeito à nova função dada ao terreno,
tendo em vista que resultará no congestionamento do
já difícil canal de escoamento da região.
A concentração de veículos, pessoas e
demais complementos decorrentes das atividades programadas
na borda da principal via da Zona Sul no sentido subúrbio-centro
é muito grave. Pode-se afirmar que qualquer estudo
de tráfego que analise o impacto do equipamento proposto
sobre a Avenida Boa Viagem indicará a sua não-implantação.
Aliás, o estudo de impacto urbanístico a ser
realizado proximamente pela prefeitura deverá cotejar
o uso do solo proposto e o que regula a legislação
vigente, onde a não-conformidade contida no projeto
será apreciada. Este é um projeto que enseja
o debate sobre a construção da cidade, em especial
sobre os desejos dos homens e as visões dos governantes.
Trata-se de reconhecer no projeto o acerto de sua feição
plástica e do seu "caráter niemeyeriano"
e, a um só tempo, reconhecer na proposta encomendada
o equívoco do projeto, que pode até estar certo,
embora no lugar errado.
O debate quanto ao mérito do conteúdo e da
capacidade pública de geri-lo versus a aplicação
dos 18 milhões de reais em detrimento de males urbanos
crônicos, como a orda de miseráveis residentes
na beira do Canal de Setúbal, por exemplo, deveriam
ser incorporados a uma ampla discussão sobre a decisão
política, as expectativas populares e a gestão
da coisa pública. Este fato recente, pelo seu caráter
e pela forma como vem sendo conduzido, merece o debate aberto
e vigoroso. Não se trata de polemizar. Trata-se de
reconhecer a responsabilidade gerencial dos governantes e
as implicações decorrentes de suas decisões
sobre a cidade. |