Terezinha Nunes - Deputada Estadual
   
 
 
 

Igualdade de Mentirinha

Artigo publicado no Diario de Pernambuco
Data: 01 de fevereiro de 2008

O movimento negro (ou afro) brasileiro sempre sonhou em contar com um ministério da igualdade racial. Acreditou que o PT faria isso, apostou em Lula, e teve o que pretendia: a ministra Matilde Ribeiro.

Não cabe agora discutir o que era melhor – ter pessoas afro- descendentes em áreas destacadas do Governo, o que ampliaria as possibilidades dos negros terem maior acesso aos altos escalões, ou apenas em uma área específica, como foi o caso. O certo é que o ministério próprio foi criado e o movimento negro estufou o peito, sinal de causa ganha nas hostes governistas.

Acontece que o presente dado aos afro-descendentes foi, pelo que se vê agora, um presente de grego. Como fez com os demais ministérios específicos que criou para fazer média – ou mídia – o presidente Lula não teve o cuidado de garantir orçamento aos ministros escolhidos e todos, como Matilde, acabaram na farra dos cartões de crédito corporativos, de triste memória.

Lembro-me de várias vezes ter estado em encontros em que a ministra Matilde tinha lugar de destaque à mesa, sendo saudada como a prova de que Lula não só era a favor da igualdade racial mas a praticava. Da mesma forma a vi dar muitas entrevistas na televisão de vários lugares do País.

Mas, por trás das pregações de igualdade feitas pela ministra e que redundaram em pouca coisa pois seu ministério não tem estrutura para tocar políticas públicas, escondia-se o uso indevido do cartão para aluguel de carro, pagamento de restaurantes e até para uma inusitada despesa no free-shop, numa das muitas visitas que Matilde fez ao Exterior para mostrar a " democracia racial" do Governo Lula.

Não dá para tirar a culpa da ministra pelo que fez de errado mas não resta dúvida de que a culpa maior se encontra mais em cima. Está na estrutura de Governo - e o presidente não pode ficar longe disso - que permitiu a existência de ministros sem orçamento e pastas sem programas. Coisa "nunca vista na história deste País", como diria o presidente.

Se a ministra contasse com um mínimo de estrutura seria, pelo menos, alertada para o que podia e não podia fazer com o cartão corporativo. Imagino que Matilde entendeu que poderia usar o cartão, sacar o que fosse necessário, e nada iria acontecer. Deve ter, literalmente, caído das nuvens com todo este escândalo criado em torno dos seus gastos e o arranhamento de sua imagem na opinião pública.

Independente do que isso pode representar para a questão pessoal da ministra, o desapontamento maior deve, a esta altura do campeonato, estar incrustado no movimento negro.

Não deve ser fácil para as pessoas que sempre lutaram por essa conquista ver sua ministra nas páginas político-policiais explicando o inexplicável porque não há como justificar que não sabia, que foi ingênua. Um ministro não pode ser ingênuo. Se a ministra é, mesmo sem poder confessar, houve má fé em quem a nomeou e a jogou às traças dos descaminhos dos cartões corporativos.

Os negros brasileiros merecem um melhor tratamento, afinal já penaram demais na longa história do nosso país. No Governo Lula, pelo visto, serviram de bucha de canhão para um presidente que se deu ao luxo de, só para parecer avançado, criar ministros sem pasta e jogar às favas a agora atarantada ministra Matilde.

   
 
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Jornalista responsável Margarette Andrea